JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Múltiplas visões, um só país

Richard Wike - China's Image in the U.S. and Around the World

china ball

“The power transition occurring in this century is sometimes called the rise of Asia, but it is more accurately called the recovery of Asia. In 1800, more than half of the world’s population was in Asia and more than half of the world’s product was in Asia. One hundred years later, more than half of the population was still in Asia, but only about 20 percent of world product was. Now, in twenty-first century, we are getting back to proportions that are historically more normal.”

 

The Future of Power

Joseph S. Nye, Jr.

 

A reputação global da China tem vindo a flutuar ao longo da última década, com uma descida mais pronunciada nos últimos anos três anos. A China apresentou uma imagem no geral, a nível internacional positiva, no período de 2000 a 2007 e foi considerada como sendo uma estratégia apelidada de “ofensiva de charme”. Mas desde 2008, a imagem global da China tem, em geral caído no mundo, à excepção da África, e alguns países da Ásia.

A maioria do povo chinês tem-se mostrado indignado sobre a forma como o seu país é visto pelo exterior, alegando que a obliquidade da comunicação social ocidental faz distorcer a “China real”. O Vice-director de Informação do Conselho de Estado afirmou no “Fórum Económico Mundial de Davos”, em 2010, que um dos temas principais da agenda chinesa seria encontrar uma forma aceitável pelo outros países para divulgar a história da China e ajudar a comunidade internacional a melhor compreender o país.

É de acreditar que seja parte da verdade, mas existem outros factores de impacto que tem vido a complicar globalmente a visão que o mundo tem da China. As mensagens que a China tem divulgado e visam projectar uma determinada imagem, tem sido muitas vezes imerecidamente tratadas como resultado de comportamentos e políticas negativas do país no exterior.

Uma das visões negativas é atribuída ao facto de enormes excedentes comerciais da China estarem a contribuir directa e indirectamente para a perda de empregos em todo o mundo e daí ser um factor de declínio da imagem internacional do país. A modernização militar e a muscular flexão regional da China na Ásia é considerada como corrosiva da sua reputação.

O sistema político da China, que tem nos Estados Unidos e naturais aliados os seus maiores opositores, pese o facto da crise sistémica Ocidental ter começado no país líder de tal antagonismo, têm criado uma admirável propaganda de inimizade no exterior, embora o seu crescimento económico seja admirado.

O registo e as contribuições para o aquecimento global ambiental por parte da China são igualmente criticados no exterior, tendo o país dado uma reviravolta em sentido positivo, ao ter anunciado a 19 de Dezembro de 2013 que investirá até 2017, o equivalente a cerca de 300 mil milhões de dólares para combater a poluição atmosférica que afecta a maior parte do país.

O plano contra a poluição criará mais de dois milhões de postos de trabalho. O montante correspondente a cerca de 37 por cento do investimento terão como beneficiários a industria de limpeza do ar, sendo ainda o correspondente a cerca de 28 por cento do investimento destinado ao incentivo às de fontes de energias renováveis, sendo os restantes 35 por cento destinados às áreas da inovação e tecnologia como a melhoria da qualidade dos motores dos veículos.

O governo chinês tinha recentemente implementado um plano quinquenal com o objectivo de incluir as novas políticas ambientais de forma a permitir eficazmente combater os altos índices de poluição existentes no país, que tem o carvão como sua principal fonte de energia. Pese tal facto, a ascensão da China no mundo dos negócios foi desconcertante para muitos, sendo todavia frequentemente vista como enigmática, pouco clara nos seus objectivos, temível e usando um “marketing político” que não condiz com as preocupações estrangeiras.

A China também é vista por muitos como não se encaixando confortavelmente na ordem liberal internacional existente e ter uma agenda oculta “revisionista” para a derrubar. Todavia, apesar dessas lucubrações, algumas sem sentido, a África, Ásia e América do Sul têm uma certa simpatia para com a China, mas o sentimento que nutre o Ocidente é de profunda angústia. Estereótipos simplistas e preconceitos, impedem muitos também de ver uma China cada vez mais complexa e matizada, quer internamente, quer no exterior.

A lacuna quanto às pesquisas regulares de opinião pública mundial acerca da imagem da China no mundo, em nada favorece o conhecimento imprescindível que se deve ter sobre o país. A “The Pew Global Attitudes Project”, desde 2005, vem a efectuar um conjunto de estudos, sondagens de opinião pública e pesquisas significativas num conjunto de países. Os estudos que podem ser lidos e constantes das pesquisas da “Pew” revelam um entendimento global misto da China, que concilia opiniões favoráveis ​​e desfavoráveis​​.

A Indonésia, Quénia, Paquistão e Rússia apresentam uma compreensão consistente e positiva da China. A Alemanha, Japão, México, Espanha e Turquia, por outro lado, tem uma visão negativa e ao longo do tempo. Os restantes países mostram resultados mistos, entre o favorável e o desfavorável quanto à imagem da China no mundo. As pesquisas da “Pew”, com algumas excepções, indicam claramente um declínio significativo da imagem positiva global da China entre 2006 e 2008, com um aumento geral do índice de favorabilidade no período de 2009 a 2011, à excepção do México e da Turquia que continuam a ter uma visão esmagadoramente negativa do país.

O Serviço de Radiodifusão britânico (BBC na sigla em inglês) realiza igualmente pesquisas globais anuais acerca da imagem dos países, sendo um pouco diferente na estrutura dos dados revelados pela “Pew”, sendo o conjunto base da sondagem constituído por 27 países. A BBC acrescenta à relação de países constantes da lista da “Pew”, o Canadá, Peru, Chile, Portugal, Itália, Nigéria, Gana, África do Sul, Filipinas, Austrália e Coreia do Sul, permitindo uma perspectiva mais valiosa de como os africanos, asiáticos, europeus e sul-americanos vêem a China.

A pesquisa de 2011 mostra visões extremamente positivas da China na Ásia, com excepção da Austrália, Coreia do Sul, Índia e Japão que consideram muito negativa. A África e América do Sul têm uma imagem muito positiva da China, com excepção do México. A Europa e América do Norte têm uma visão geralmente negativa. A sondagem de opinião da BBC reconfirma de certa forma as conclusões da pesquisa da “Pew” em 2011.

O facto mais impressionante a registar é que a maioria da população dos vinte e sete países ou tem uma opinião indiferente ou não manifesta qualquer posição sobre a China. Isto significa que nesses países a China não é um tema fulcral, ou seja não tem interesse a posição do país no cenário global e em termos polarização do poder mundial, bem como não revela que os americanos e os europeus tenham opiniões esmagadoramente mais negativas que as reveladas na pesquisa da “Pew” reiterando os pontos de vista negativos da Índia, Japão, e Coreia do Sul.

A sondagem da BBC, sustenta ainda os resultados da “Pew” em termos de imagem, comprovadamente positivos em todo o resto da Ásia, à excepção da Austrália, cuja opinião é mista, sendo semelhantes as opiniões no geral positivas em África e na América do Sul, à excepção do México. Tal como a pesquisa da “Pew”, no geral, os resultados da sondagem da BBC também mostram um aumento global em termos de visão global positiva da China em 2010 e 2011, com as notáveis ​​excepções do Canadá, Índia, Japão, México e Estados Unidos.

Os dados da “Pew” e da BBC considerados em conjunto, fornecem uma perspectiva interessante acerca da forma como a China é actualmente vista no mundo, continuando a desfrutar de “índices de favorabilidade” altos na África, América do Sul e partes da Ásia, apresentando índices negativos persistentes em toda a Europa e restantes partes da Ásia. Os americanos têm uma visão ambivalente.

A queda global da imagem da China entre 2006 e 2008 parece ter sido invertida no período de 2009 a 2011. Apesar de tal facto, a conclusão mais importante a retirar é que a imagem global da China continua a ser mista e a maior parte do mundo é muito ambígua acerca da ascensão do país no cenário global. O futuro do impacto da China no mundo vai depender de uma ampla variedade de determinantes nacionais e internacionais, mas uma das variáveis mestras é a forma como os chineses entenderem a posição e o papel internacional do seu país.

Actualmente, a China está a passar por uma espécie de crise de identidade internacional, que possui um número de concorrentes internacionais e cultiva um número apoiantes a nível igualmente internacional que se pode resumir, a que as grandes potências são a chave, as áreas circundantes são a primeira prioridade, os países em desenvolvimento são o fundamento, e fóruns multilaterais são a etapa importante.

A política externa da China, como consequência dos seus concorrentes internacionais, apresenta diversas matizes parecendo por vezes contraditória, outras complementares com relevo e direcção. O mundo é testemunha de que os líderes chineses estão presentes nos encontros intergovernamentais, actuando como agentes de poder global e desempenhando o papel pragmático de um país comprometido e responsável.

Mais que retóricas beligerantes e impulsos hiper-nacionalistas a China está ocupada pragmaticamente a negociar acordos de parceria comercial e a assinar tratados de cooperação ampliando a sua rede global de parceiros. Tal comportamento é indicativo de acirrados debates internos e de diversas forças que puxam a China a nível internacional.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 10.01.2014

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