“China faces an enormous challenge in sustaining its rapid growth and maintaining macroeconomic stability; but stagflation is not likely to materialise in China any time soon. This precarious future situation depend of three factors: deceleration of the US economy, elevated international oil prices and gradual cost normalisation in China.”
China’s Dilemma
Economic Growth, the Environment and Climate Change
Ligang Song and Wing Thye Woo
Social Sciences Academic Press (China)
July 2008
A crescente ruptura social e a deterioração do meio ambiente, além da crise global e as suas sérias implicações que começam a varrer a Ásia, está a preocupar os dirigentes chineses, nomeadamente os do “Bureau Político do Partido Comunista da Chinês (PCCh)”, composto por vinte e cinco membros e os mais poderosos de uma hierarquia que dirige cerca de setenta e três milhões de militantes, estimados em 2007 e cujo pilar das urgências passou das cidades para as enormes áreas rurais, sendo a prioridade dar um nível de vida adequado aos camponeses que se calculam em cerca de novecentos e sessenta milhões de pessoas, dos quais mais de cento e cinquenta milhões são imigrantes, que se deslocaram do campo às cidades do litoral, abandonando a produção agrícola e desequilibrando a desejada segurança alimentaria.
Nos últimos trinta anos, a China aplicou com notável sucesso a política de abertura e reforma iniciada por Deng Xiaoping, pai da moderna China. Após os desregramentos da Grande Revolução Cultural Proletária de 1966-1969, que teve como consequência a apatia do país por uma década, deu uma reviravolta, passando do violento extremismo de esquerda para políticas de desequilibrada liberalização económica, que mostram as consequências a nível social e económico diariamente com grande acutilância.
O grande timoneiro da viragem que incutiu a máxima de que “é glorioso enriquecer-se”, iniciou uma nova era económica da República Popular da China, em 1979, ao introduzir um modelo que a transformou de forma radical. O país iniciou um crescimento de dois dígitos que produziu a mais alucinante acumulação de riqueza na história da humanidade. Os sonhos não conseguiriam produzir um quadro imaginário que previsse a inflexível China de Mao Tsé-Tung, pai e fundador da República Popular a 1 de Outubro de 1949, atingir o terceiro posto das economias mundiais.
O seu total pragmatismo ficou evidente ao opinar que “Não importa a cor do gato, desde que cace ratos” ou seja, não interessam as ideologias, mas os resultados que estão à vista, num um país que passou da miséria num curto espaço de tempo e detém o terceiro maior produto interno bruto e, se acaso não surgisse a crise económico-financeira-social de múltiplos tentáculos, a continuar este ritmo de crescimento que se prevê entre os 6%-7% este ano, mas com tendência no meio do ano a ser revisto em baixa, poderia ser a primeira economia mundial em algumas décadas.
Tal só poderá acontecer, se for vencida a batalha das desigualdades sociais e consequentes fortes pressões que se produzem e as diversas crises, comodamente apelidada internacionalmente de crise global, como se esta fosse um cesto, onde todas as outras coubessem à molhada. Se era difícil à China esconder anteriormente, um batalhão de cerca de oitenta milhões de desempregados que representa a população da Alemanha, mais o será, quando pode vir a atingir os duzentos milhões. O grande desafio de Deng e do seu sucessor Jiang Zemin, era o de fazer crescer o país, o mais rápido que fosse possível e, por essa via, arrancar da miséria, multidões de campesinos. É a face resplandecente, coexistindo com a outra face sombria, traduzida na crescente ruptura entre os que conheceram a oportunidade da glória e os que a esperam.
As estatísticas chinesas são como todas, motivo de controvérsia, mas estima-se que cerca de um terço dos mais de mil milhões e trezentos milhões de habitantes, abandonaram a pobreza e que na actual conjuntura mundial, pelo menos, metade pode a ela regressar. No maior período de incerteza que o mundo vive e reconhecido pelo Fórum Económico Mundial de Davos, os demais chineses que habitam o interior do país e se dedicam à produção agrícola, tão essencial, talvez, nunca vejam os benefícios da mudança sem contudo deixar de aguardar esse tempo com crescente inquietude. O fim-de-semana passado foi ávido em reportagens e entrevistas por parte da BBC nas principais cidades da China, em particular nas do litoral mostrando a real situação que se vive em termos de desemprego exponencial.
Quem tente procurar uma imagem do que sucede na China, pode encontrar algo significativo, revelado pela transparência sincera do Ministro responsável do Gabinete de Informação do Conselho de Estado, ao afirmar que “algumas das nossas cidades apresentam uma riqueza europeia e algumas zonas rurais com uma pobreza africana”. Quem desconhece a China é difícil compreender que um país que se afirma socialista, possam formigar os estabelecimentos de venda de artigos de luxo supérfluo que correspondem a dez anos de trabalho de um camponês. O mesmo responsável diria que não era intenção criar uma sociedade inteiramente igualitária, pois careceria de energia, mas que o governo está a tomar medidas no sentido de melhorar a distribuição da riqueza. Anteriormente, tinham sido aumentados os impostos e iniciada uma cadeia de aumentos salariais. Iniciaram-se investigações sobre a formação de fortunas.
Investigações que devem ser aprofundadas, para dar resposta à forma como as multinacionais realizam negócios, gerem lucros, pagam dividendos, bem como, muitas empresas do exterior, pára-quedista, sem situação legal definida, negoceiam, o tipo de contabilidade de que dispõe, a situação dos seus dirigentes e trabalhadores que muitas das vezes com visto de turismo se deslocam livremente como autênticos residentes, sem qualquer capacidade técnica e idoneidade, as formas como movimentam capitais sem usar o sistema financeiro, que mais do que representar branqueamento dos ditos, representa uma rapinagem à administração fiscal da China, por falta de transparência, pagamento de impostos e taxas e clara violação à lei. Tal filme, é bem protagonizado pelo pulular de africanos e outras nacionalidades de países mais pobres da América do Sul, pelas grandes cidades chinesas, fábricas de um mundo em ruína económico-financeira, a tentarem ganhar alguns tostões para fugirem à miséria e muitas vezes sem base legal comercial, apenas representada por simples cartões, onde figuram como directores e gerentes de firmas existentes pelo valor tipográfico da impressão.
O descontentamento nas zonas rurais é visível e são testemunho o crescente número de confrontações entre os camponeses e a polícia. As prestações de saúde são quase inexistentes nas zonas rurais e a educação é deficiente. A conjuntura criada pela crise económica mundial pode ajudar os planos de mudança do governo. A procura internacional em queda livre obriga as indústrias a procurar novos mercados que no exterior vão rareando e terão que inevitavelmente, achar nas áreas desprezadas do país.
O governo anunciou a injecção de fundos para criar emprego com a realização de um conjunto de programas de obras públicas, como a construção de mais de vinte linhas de metro, quer em Pequim, quer em Xangai, que duplicarão as suas respectivas superfícies.
A China pretende ter a maior rede ferroviária e tem projectado a execução de linhas ultra rápidas, sendo o segundo país com a mais extensão de rede de estradas. Para que se dê a recuperação e se faça frente às diversas crises internacionais e interna, necessita a China de manter a sua vitalidade económica e não diminuir o crescimento dos 8% que deve ser cumprido, quer seja pela via do comércio e investimento internacional ou doméstico. Sem maus augúrios, os ventos que ora sopram, são contrários a tal desiderato. Vive a China um dilema que mostrou ser capaz de ultrapassar em situações difíceis, ainda que, não tão angustiosas e vastas.
















