Dreams From My Father
O Presidente Barack Obama tomou posse como quadragésimo quarto presidente dos Estados Unidos e o discurso que pronunciou contentou diversas correntes de pensamento político americano. Pautou-se por uma ténue mensagem crítica contra a anterior administração liderada por George W. Bush, contentando desde os democratas apoiantes, passando por republicanos até uma determinada linha de pensamento defensora de uma ideologia conservadora, nacionalista e antiglobalização encabeçada por Pat Buchanan, antigo assessor dos presidentes Richard Nixon e Ronald Reagan, que por diversas vezes foi candidato à nomeação republicana e é o maior inspirador das causas da direita fazendo apelo à defesa da indústria e da agricultura contra a banca internacional, as multinacionais de múltiplas máscaras e os especuladores da bolsa.
Quando as sondagens eleitorais começaram a revelar uma clara vantagem ao candidato democrata, o líder do conservadorismo começou a expressar a sua concordância com o investido presidente, na sua clara reafirmação pelos valores tradicionais, em que os desafios e os instrumentos usados para os enfrentar poderiam ser novos, mas os valores dos quais dependia o sucesso da campanha eleitoral de Barack Obama, como a honestidade, duro trabalho, valor, jogo limpo, tolerância, curiosidade, lealdade e patriotismo eram antigos e sendo verdadeiros foram a silenciosa força de progresso na história da América.
Uma sucessiva série de acontecimentos de explícito cariz religioso marcou as cerimónias de tomada de posse, iniciando-se com o espectáculo festivo realizado no dia antecedente no “Abraham Lincoln Memorial” marcado como lugar de referência do discurso proferido a 28 de Agosto de 1963 pelo Reverendo Martin Luther King “I have a dream”, situado no “National Hall” entre o “Capitólio” e o “Monumento George Washington”; o serviço interconfessional celebrado na Catedral Nacional com a presença dos membros da nova administração e a liturgia na igreja baptista de São João, situada nas proximidades da Casa Branca, sendo patente o desejo de incorporar a sensibilidade transcendente do povo americano.
A predicação do Reverendo Rick Warren da igreja evangélica foi de oposição ao aborto e matrimónio de homossexuais no meio de uma multidão de perto de dois milhões de pessoas e diante do Capitólio cantando o Pai-Nosso, com a frase “ teus são, Senhor, o reino, o poder e a glória” idêntico na temática ao do sermão do bispo da igreja episcopal perante a estátua de Abraham Lincoln que acusou a homossexualidade de estar a dividir de forma irremediável o ramo americano do anglicanismo inglês, onde sobressaiu a frase “se queremos estar à altura dos desafios do futuro, concede-nos a graça de sentirmo-nos insatisfeitos face às respostas simples e fáceis dos nossos políticos porque só assim podemos enfrentar os desafios do futuro”.
O presidente Obama, posteriormente diria “somos uma nação de cristãos e muçulmanos, judeus, indianos e não crentes” oferecendo aos muçulmanos um novo caminho para o futuro, suportado no mútuo interesse e benefício, do resumido de tudo para todos. O discurso inaugural dos presidentes americanos é um género político literário de características bem determinadas, carregado de abundante boa retórica e onde escasseiam as ofertas programáticas. Presidentes houve, que passaram à história por uma feliz contundência das suas imagens, como Franklin Roosevelt que dizia que “a única coisa que devemos temer é o medo” ou John Kennedy que afirmava “pergunta o que podes fazer pela América e ela o fará por ti, ou o que podemos fazer juntos pela liberdade do homem”.
Outros presidentes ficaram submersos na letargia dos arquivos históricos. Por certo que presidente Obama integrará a segunda classe, sem retirar-lhe o mérito dos seus bons propósitos e o cuidadoso cálculo entre o tradicional e o inovador, que talvez seja a parte mais característica do discurso e onde se visam as intenções e capacidades do que referiu. O novo presidente parece gerir com adequada autoridade, as prioridades do seu mandato descrevendo sem contemplações a situação económica grave que o país atravessa, frisando as distâncias em relação à anterior administração e apontando as linhas fundamentais da política externa. Em relação à primeira prioridade vai ter de derramar muito sangue, suor e lágrimas, na segunda a demarcação tem sido respeitosa e na terceira propõe ser flexível.
Tratou-se de um discurso pragmático, que explicitamente exclui os dogmas ideológicos. O distanciamento da administração Bush, foi débil mas claro, podendo ser interpretado como um modelo de cirurgia por extirpação da cobiça, irresponsabilidade, sacrifício dos princípios à eficácia e da proclamação da amizade universal. A grande crítica ficaria pela falta de tempo em expor o “modus executandi” da parte mais espectacular e fácil do seu programa, como o encerramento da prisão de Guantánamo no espaço de um ano, a retirada das tropas do Iraque em dezasseis meses, o congelamento dos salários dos que detém postos directivos na Casa Branca e as limitações para o trabalho privado dos que trabalhadores do sector público.
O distanciamento não chega a ser tão largo em relação à anterior administração ao ponto de colocar em dúvida as linhas essenciais de conduta, relativas ao terrorismo, liberdade, democracias e luta contra os totalitarismos. Os tiranos do mundo, desde Cuba à Coreia do Norte, passando pela Venezuela, Equador e Bolívia, pensam que as palavras do novo presidente não passam de salsa picada para pastéis de bacalhau? Será um erro crasso de visão, pois o novo presidente assegurou aos seus concidadãos que o país retomará a liderança face aos que concebem o terror e assassinam inocentes ou se agarram ao poder através da corrupção, engano e silenciamento dos dissidentes. Ao contrário deste pensamento situa-se o presidente colombiano, tendo em consideração que a Colômbia, como maior aliado americano no continente sul-americano, faz um acordo inédito com o maquiavélico presidente venezuelano para combate ao terrorismo alimentado pelos narcotraficantes e apelidado de guerrilha libertadora. É a quinta ingenuidade colombiana em espaço curto, face aos enraizados maus propósitos do seu vizinho que serão traídos a breve trecho, para miséria e indignidade do povo colombiano.
Quem teve a atenção de reparar no pormenor do valor simbólico dos gestos, deu-se conta da evidência do afecto respeitoso que o presidente cessante e o que iniciava o mandato celebraram na democrática e bela cerimónia de transferência de poderes. A virtude do presidente Barack Obama é o seu fulgor pela nação que aspira dirigir. Os que adquirirem a cidadania americana receberão uma carta do presidente, no qual é recordado que a América não está unida pelo sangue, nascimento ou território Está unida por princípios que além dos próprios meios, se elevando acima de quaisquer interesses particulares e ensinam o que significa ser cidadão. A profundidade da alocução do novo presidente é da promessa divina de que todos são iguais, livres e têm o mesmo direito a procurar a felicidade. Não existiu alocução presidencial que desde os tempos da Declaração de Independência se tenha desviado dessas convicções. Não existe momento na história americana em que os cidadãos da república, apesar de fragilidades e vacilações, não se tenham sentido impulsionados pelas mesmas aspirações.
Os Estados Unidos, são Barack Obama, e o rasto de entusiasmo que a sua figura desperta não pode ser menosprezada. Não devem porém, os Estados Unidos neste tempo de inolvidável entusiasmo, esquecerem-se dos obstáculos que a realidade colocou. Os tropeços e as vacilações serão sempre parte do trajecto. Os americanos devem entender que o novo presidente é apenas um ser humano e não um messias de capacidades divinas.
Jorge Rodrigues Simão, in "HojeMacau", 30.01.2009
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Numa só coisa, conquanto importante, estamos de acordo os Obama maníacos e os Obama cépticos. Em que Obama é a realização do sonho americano e um passo de gigante na erradicação do racismo. Coincido em isto até com o escritor Richard Ford, um desses sectários que pensavam exiliar-se se ganhavam os republicanos, quem escreveu que Obama fincou uma estaca no coração do racismo americano. Pelo poderoso impacto da imagem de um presidente negro. Destrutivo, demolidor, para os racistas, mobilizador, estimulante, para os negros. Como desmobilizador, decepcionante, demolidor, foi para as mulheres o impacto da imagem de Michelle Obama, outrora brilhante advogada e não sê quantas coisas mais. Convertida agora num cabide, em top model, em ícone da moda, em embaixadora fashion de Estados Unidos, até nessa recorrente imbecilidade da nova Jackie Kennedy. Uma estaca no coração da igualdade de género é mais bem o seu. Negros ao poder e mulheres aos trapitos. Michelle Obama é seguramente uma participe involuntária de toda esta montagem, atracada a sua pesar no velho mundo das Jackies Kennedys e restantes despropósitos em que ficam convertidas as consortes dos poderosos. Surpreendida quiçá como o estamos muitas mulheres pelo velho e retrógrado que foi a terça-feira histórica para nós. Barack com a revolução e Michelle com a involução.
Há quem tentam comparar a Obama com políticos do terreno. Há quem -com intenção malévola ou obsequiosa lhe comparam com…, e este, encantadíssimo, já se apropriou da semelhança. Mas se Obama tivesse nascido em León, ou em Santiago, em vez de em Honolulu, já lhe teríamos linchado ao dia seguinte de sua investidura. Vejamos se não. Antes de apresentar-se a jurar o cargo foi rezar a uma igreja episcopal. Cantou depois o hino de seu país com notável entusiasmo. Envolveu-se na bandeira, como fez ao longo de toda a campanha. Jurou sobre a Bíblia de Lincoln. Falou de princípios, de velhos ideais, do trabalho, do amor a seu país. Teve várias afectuosas reuniões com John McCain, seu rival nas eleições, a quem parece ter convertido em assessor político. E a quem para valer foi sua principal adversária, a Hillary Clinton, converteu-a em sua primeira colaboradora no Executivo. Todos estes são gestos de unidade destinados a galvanizar a um povo em tempos de adversidades. Mas aqui, no solar pátrio, o de ir a Missa teria sido chamado de falta de respeito, o do hino teria parecido de fascistas, o da Bíblia de retrógrados, o de manter um trato civilizado com o rival lhe teria valido o remoques a mais terno do que um cruzam e o de subir a bordo a Hillary teria parecido próprio de suicidas. Obama aqui não teria resistido um par de manchetes. Mal caminho é este. Agora que tanto se fala de Roosevelt se esquece que o keynesianismo deste só pôde funcionar porque antes tinha unido e galvanizado a sua sociedade sob o comum sentimento de que só sairiam da crise se mantinham o espírito de comunidade, de união, de patriotismo, de solidariedade em tempos de adversidades. O mesmo espírito que lhes levou depois à vitória na guerra, e que Obama tenta recuperar. Sem esse espírito, o keynesianismo é mero arbítrio, pirata, gasto sem fruto. A eficiência económica ou a garante o interesse próprio -que é o habitual ou em tempos de excepção precisa de união, de espírito rooseveltiano, de pátria, para que o interesse comum seja realidade.
















