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Entrada Perspectivas O efeito dominó

O efeito dominó

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“If many people sell their shares too quickly, panic can set in, with investors believing they won’t get back at least what they paid for the share. This is what happened in October 1929.”

Brenda Lange
The End of Prosperity
The Stock Market Crash of 1929

A Alemanha, França, Reino Unido e Itália reuniram-se no dia 4, para definir a extensão da crise bancária, a nível de cada Estado. Ainda que presentes, nem o presidente da Comissão Europeia, nem o Presidente do Banco Central Europeu (BCE) ou o primeiro-ministro do Luxemburgo e presidente do Eurogrupo, quiserem representar a totalidade dos Estados-membros da “zona euro”. A Chanceler alemã abriu a mini cimeira, decidindo de rajada garantir todos os depósitos privados e acordou com a banca comercial, um resgate de cinquenta milhões de euros para o Hypo Real Estate Holding AG; na França, o banco BNP Paribas, que é o maior banco de depósitos da “zona euro”, assinou um acordo de assunção do controlo das actividades bancárias e seguradora do banco franco-belga Fortis, que tinha recebido há dias uma injecção de capital de cerca de onze mil milhões de euros dos governos belga, holandês e luxemburguês, com o fim de restaurar a confiança dos investidores na instituição bancária e na Itália, o primeiro banco, o Unicredito fará uma injecção de cerca de seis mil e quinhentos milhões de euros.

Estas injecções de capitais por parte dos governos em alianças com os bancos, que se realizam um pouco por todo o mundo, e que na “zona euro”, mesmo querendo aplicar a ferro e fogo, o pacto de estabilidade e crescimento, que fixa em 3% do PIB, o limite do deficit, sendo ilusório na actual situação que vive o sistema financeiro internacional, terá de reflectir tais circunstâncias e que no actual cenário a realidade mais próxima, será o de acumular de deficits e voltar à espiral do endividamento. O governador do Banco de Inglaterra foi solidário com o presidente do BCE, no que parece estar a ter cada vez mais contornos de “síndroma financeiro americano”. O presidente do Euro grupo, chegou a defender um retorno a “Maastricht”, ou seja, à aplicação da figura de boa conduta fiscal abolido há anos, pela realidade económica e financeira da Europa. Na verdade, a Europa vive numa quase restrição de conformidade com a verdade, através de práticas traduzidas em apressadas intervenções ou nacionalizações puras e simples.

O banco franco - belga Fortis foi a primeira instituição financeira relevante, a ser nacionalizada em parte, pela Bélgica, França e Luxemburgo. A queda do Fortis era certa desde o início do mês passado. No dia 3, as suas acções atingiram mínimos históricos em quinze anos, demonstrando que a instituição tinha pés de barro e os seus problemas podem afectar a fusão, fabricada, do consórcio constituído pelo banco Santander, pelo Royal Bank of Scotland e pelo Fortis, que adquiriram o banco ABN-AmRo, da Holanda, a 17 de Outubro, por setenta mil milhões de euros.

Na City, a situação não era melhor, dado o furacão anglo-saxónico a ter golpeado há meses e o banco hipotecário Nortthern Rock, teve de contrair um empréstimo junto do Banco de Inglaterra por cinco mil milhões de libras, para o salvar de falta de liquidez (dinheiro em caixa). A situação atingiu, também o banco Bradford & Bingley (B&B) que é nacionalizado, sendo os seus melhores activos vendidos ao banco Santander. Foram situações relacionadas com depreciações e liquidações, que tem por causa as más hipotecas americanas e desde há alguns dias desvalorizavam-se as suas acções e a capitalização bursátil (valor de mercado) contraiu-se, passando de mais de catorze mil milhões de dólares a menos de mil e quinhentos milhões de dólares, o que obrigou a uma nacionalização que, como a do banco Nortthern Rock, viola as regras mercantilistas do Banco de Inglaterra, enaltecido recentemente num patético texto do “Financial Times”, que defende a liberdade de mercado, e certamente foi escrito há um século, e por engano publicado.

A crise financeira de 1907-1908, suspeitamente esquecida na lista do século XX, apresenta muitas semelhanças com a actual crise “subprime”. Existia um mercado em alta, uma onda enorme de “Mergers and Acquisitions (M&A)” de empresas e credores que emprestaram para além dos limites. No final, tal como está a acontecer, a confiança desmoronou-se e o pânico produziu o efeito dominó. O aprofundamento desta crise pode ser lida no magnífico livro “The Panic of 1907” de Robert Bruner e Sean Carr.

A reunião de Paris, foi tão inútil como os exorcismos do presidente do Eurogrupo de tentar reanimar “Maastricht”. Na actual conjuntura poucas são as ilusões sobre a Conferência Anual do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Internacional de Reconstrução e Fomento (Banco Mundial), que se realiza entre 11 e 13, em Washington, com duas condicionantes negativas, a das eleições americanas estarem muito próximas e os Estados Unidos deixarem de ser a potência dominante.

A reunião da Alemanha, França, Reino Unido e Itália obedece a um projecto de resgate financeiro diferente do americano. Existe, um senão, pelo facto da Irlanda ter chumbado o Tratado de Nice, como forma de oposição ao alargamento da UE aos países de Leste e o actual Tratado de Lisboa. Quer o Conselho Europeu, quer a Comissão Europeia têm trabalhado arduamente, tentando fazer com que a ovelha volte ao redil, sem êxito. A situação complicou-se com a nacionalização dos principais bancos da “Ilha”. A Irlanda vai mais além, quando o governo decide garantir, por dois anos, todos os depósitos nas suas maiores instituições bancárias, sem avisar a Comissão Europeia, o que provocou uma fuga de capitais para o país, provenientes da “zona euro”, dos restantes países da UE, da Suíça, mas o grosso da fuga de capitais é originário do Reino Unido.

A atitude irlandesa criou sério mal-estar no Reino Unido e em outros Estados-membros, e a reunião dos quatro países, deve-se ao facto de na UE serem os únicos que fazem parte do grupo de países do G-7. Tal encontro, com o Canadá a bater à porta, realizou-se numa atmosfera de mútuas suspeitas e desentendimentos, ao ponto da Chanceler alemã desmentir publicamente “le noble” presidente francês, de que nunca tinha proposto um fundo de resgate para toda a UE, como afirmara. A reunião termina, sem um plano de regaste para toda a “zona euro”. Tal como aconteceu, quando os irlandeses recusaram o projecto de tratado constitucional assinado em Lisboa, os cidadãos dos outros Estados-membros levaram em conta esse antecedente, mas actualmente trata-se de uma dupla crise de más hipotecas e crédito que ameaça os bolsos e a tranquilidade dos europeus.

Os governos de Portugal, Dinamarca, Áustria e Suécia decidem garantir os depósitos bancários dos seus nacionais, assim como tinham afirmado a Irlanda e a Alemanha, que garantiam a totalidade dos depósitos nacionais, à margem de um acordo comum total da UE, para proteger a confiança nos seus sistemas financeiros e evitar a sua descapitalização. Temos de convir, que tal atitude, fundada em decisões unilaterais, são negativas no contexto da UE, pelo que implica a concretização de um acordo comum e a maior parte dos Estados-membros, estabeleceu como regra interna o limite de vinte mil euros. A Dinamarca começou por criar o limite de garantia em trinta e nove mil euros, para tomar, em seguida, posição consentânea com a Irlanda e Alemanha.

Entretanto o presidente da Comissão Europeia tinha como plano tentar convencer o limite de resgate dos depósitos em quarenta mil euros, primeiro na reunião dos Ministros das Finanças do Eurogrupo, realizada dia 6 e depois na reunião dos Ministros das Finanças dos vinte e sete Estados-membros (Ecofin), realizada, dia 7 no Luxemburgo.

Entretanto, a crise financeira mundial mergulhou as bolsas europeias, dia 6, devido à confirmação de que o terramoto creditício americano, tinha feito vítimas, vários bancos europeus, provocando o pânico, apenas ultrapassado pela “Segunda-Feira Negra” de Janeiro, em que a volatilidade marcou a sessão bolsista em toda Europa, apesar das tentativas desesperadas de muitos governos por assegurar os depósitos bancários dos seus nacionais.

Antes das aberturas das bolsas da Europa, as bolsas da Ásia e Rússia despenharam-se, com quedas que variaram entre 4% e 5%. O descalabro de várias entidades financeiras europeias reflecte a situação do outro lado do Atlântico, onde o governo dos Estados Unidos tinha aprovado um plano de emergência de cerca de setecentos mil milhões de dólares, para resgatar o seu crucificado sistema financeiro, onde a banca de investimento desapareceu do mapa. O governo alemão fez um esforço, ainda maior, que o previsto inicialmente, para salvar o maior banco hipotecário - Hypo Real Estate (HRE), que perdeu mais de 50% do valor das suas acções no início da sessão bolsista, sendo o último protagonista de vítimas europeias, ainda que, acompanhado pelo banco Fortis, absorvido por BNP Paribas e pelos governos do “Benelux” e a nacionalização do banco inglês (B&B).

A Bolsa de Nova York caiu mais de 3,5%, o que não se dava desde Outubro de 2004, apesar da mobilização dos governos para fazer face à crise financeira. A pandemia bolsista e financeira começou a alastra-se aos mercados europeus, onde os governos tinham resgatado várias entidades atormentadas pelas turbulências creditícias. Os níveis bolsistas precipitaram-se depois da intervenção estatal nas instituições bancárias inglesa, alemã e franco-belga.

Concluía-se que a aprovação do plano de resgate não era suficiente para retirar a incerteza na “Wall Street”. Após a aprovação pelo Congresso, ver-se-á como se vai efectuar o resgate e quanto tempo será necessário, para o seu impacto ser conhecido. O presidente americano, reconheceu que as medidas demorarão tempo até sortir efeito.

No final da reunião do Estados-membros do Eurogrupo existia um acordo de princípio sobre o apoio aos vinte e sete Estados-membros, no sentido de elevar a garantia mínima dos depósitos na UE, acima dos quarenta mil euros que podiam atingir os cem mil euros. Pensamento apoiado pela Grécia, Suécia, Dinamarca, Alemanha, Áustria, Portugal e Espanha. O acordo comum veio a consagrar a garantia mínima dos depósitos bancários para toda a UE, no valor de cinquenta mil euros. A Irlanda, Alemanha, Itália, Grécia e Dinamarca asseguram a totalidade dos depósitos

Esta decisão tem como intenção transmitir confiança aos depositantes e às bolsas, mais que um plano de garantia massivo, que os líderes europeus, banqueiros e intuições bancárias necessitam. Se os Estados-membros tivessem de recorrer ao fundo, as consequências para a economia far-se-iam sentir durante anos. A Irlanda com a sua larga cobertura para a totalidade dos depósitos, teria de despender cerca de quatrocentos mil milhões de euros, ou seja, o triplo do seu PIB.

O dia 8, foi um dos mais trágicos vividos em autêntica loucura bolsista. Quedas e recuperações deram-se por todo o mundo, atingindo quase picos históricos, em ambas situações. O final das sessões, foi de cenário negro com novas quedas. A “Wall Street” encerrou em perda e na Ásia o afundamento do mercado bolsista foi o pior desde a “Segunda-Feira Negra”, de 20 de Outubro de 1987, quando resvalou cerca de 15%. Tratou-se da terceira maior queda da sua história, desde 1953.

O cenário que se segue, será sempre uma acção concertada entre o BCE, a Reserva Federal americana e alguns bancos centrais. Liquidez existe, que está condicionada pelo medo de emprestadar. A falta de confiança gerou o efeito dominó. Está-se a viver mais uma crise psicológica que real, não existindo psicoterapeuta financeiro que a cure de momento.

A crise irá agravar-se, mas como todas as crises psicológicas, que têm o seu ciclo depressivo. Seguido de entusiasmo desmedido, numa mania que sempre caracterizou o mundo financeiro e psicológico.

Jorge Rodrigues Simão, “HojeMacau”, 10.10.2008

 

 

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