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Entrada Perspectivas Fundamentalismo de laissez-faire (II)

Fundamentalismo de laissez-faire (II)

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“I have a dream that one day this nation will rise up and live out the true meaning of its creed: 'We hold these truths to be self-evident, that all men are created equal.'"

Rev. Martin Luther King

 

Em tempos de crise, Paul Krugman foi galardoado com o Prémio Nobel da Economia. Tem feito, duras críticas à forma como a Administração Bush tem gerido a crise económica e financeira e afirmou dia 13, ter sido o primeiro dia em sentiu que os líderes políticos tinham superado as expectativas ao invés de as defraudar. As decisões tomadas na “Cimeira Europeia” tinham sido melhores do que esperava, havendo um clima mais favorável e optimista, onde a política se apresentava com sentido, dado até ao presente seguir na direcção errada. Tinha-se imposto o modelo britânico e não o alemão. O Secretário de Estado do Tesouro americano tinha fracassado.

Paul Krugman, aos 55 anos de idade, por fim agraciado por méritos de há trinta anos. Os académicos escandinavos presentearam prémios a matemáticos que acabavam de criar derivativos letais. Ao crítico sistémico da era do presidente Bush, o talento do prémio tem como causa, uma teoria sobre comércio internacional que data de 1979, quanto tinha vinte e seis anos. O papel do homenageado, como analista de oposição das posições do presidente americano, das suas políticas económicas e financeiras e da “Wall Street” superam de longe a relevância das suas ideias plasmadas na tese de doutoramento de juventude. Não foi pelas mesmas, que captou a atenção do senador pelo Estado de Illinois, Barack Obama, candidato presidencial democrata e caso não sofra algum acidente de percurso como sucedeu a Robert Kennedy nomeado pelo partido democrata e com as sondagens a seu favor é assassinado há quarenta anos em Los Angeles, ou ao Reverendo Martin Luther King, prémio Nobel da paz em 1964, esforçado lutador dos direitos humanos que teve a ousadia de sonhar e que a 28 de Agosto de 1963 proferiu o célebre discurso “I have a dream” igualmente, assassinado a 4 de Abril de 1968 e que Barack Obama o homenageou, encerrando a convenção democrata a 28 de Agosto, será o quadragésimo quarto presidente dos Estados Unidos, cumprindo-se o sonho antecipado.

A partir do célebre caso “Enron”, no final de 2001, o economista, que não é econometrista nem analista, como tantos que usam o título, não teve dúvidas. Foi uma experiência que teve por essência, ignorar ou torcer as regras contáveis, típicas do Estado do Texas. No final do terceiro trimestre de 2003, advertiu que o tecido económico americano parecia desfasar-se de novo, por falta de liderança política. Tal afirmativa, é feita meses após a invasão do Iraque com pretextos equívocos e de forma pouco inteligente.

Os detentores do prémio Nobel, não são deuses menores e também erram. Era sabido, que a guerra iria custar mais do que o imaginado, quando o Congresso deu luz verde. Quem teve a oportunidade de ler o livro “The Three Trillion Dollar War: The True Cost of the Iraq Conflict” de outro prémio Nobel da economia, Joseph Stiglitz e Linda Bilmes, publicado a 3 de Março, que se recomenda, é calculado o custo da guerra do Iraque e Afeganistão em mais de três triliões de dólares, com as consequentes destruições dos países em termos físicos e humanos, a deterioração da estabilidade da região, da alteração dos planos de exploração e fornecimento do crude, das retaliações aproveitadas pela OPEP traduzidas nas altas dos preços e consequente propagação a nível global com as consequências por demais conhecidas. Tudo e muito mais, não contabilizadas as altas baixas americanas, inglesa, espanholas, australianas em mortos e feridos, com alta taxa de incapacitados e o custo total dos prejuízos.

Se compararmos o que os Estados Unidos gastaram em guerras como as do Iraque e Afeganistão, o plano de resgate, é uma simples operação na grandeza das reais possibilidades do sistema financeiro americano, que inteligentemente foi jogado aos europeus, que ingenuamente pegam na crise exportada e fazem-na como sua também. É um dado a não esquecer pelos depositantes e investidores, que apesar das consecutivas injecções de capital no sistema financeiro, não conseguiu a estabilidade por via do temor reverente a uma possibilidade remota ou impossível de um colapso total. Nos mercados emergentes os sinos ouvem-se e se não houver prudência e promoção diária estabilizadora, poderão começar a tocar a rebate.

Existe um contraste entre a previsão que muitos firmaram, antes de Paul Krugman e o actual silêncio político durante a campanha eleitoral, inclusive ao redor do Iraque e algo pior, a situação do Afeganistão e Paquistão. No segundo mês de 2004, obcecou-se pelo problema social da assistência médica, cuja média é igual ou superior ao resto do mundo desenvolvido, oferecendo à população de menores recursos estimada com a actual crise em quarenta e cinco milhões de pessoas, com tendência a aumentar, más prestações, insegurança e altos custos. A maioria dos países desenvolvidos oferece assistência de melhor qualidade e menor custo, dado nos Estados Unidos, a saúde e educação serem negócios privados.

Em Março de 2007, em referência à borbulha imobiliária iniciada em 2001, afirmou o que outros tinham previsto igualmente, ou seja, de que a acumulação de dívidas hipotecárias de má qualidade desencadearia uma cadeia de falências quanto reduzissem os preços e desde Agosto do ano passado, que tem vindo a acontecer. No plano macroeconómico fez uma critica pouco simpática mas certeira à Administração Bush ao dizer, que num espaço de vinte e seis anos, de 1979 a 2005, os rendimentos reais das famílias médias cresceram cerca de 12% e o das famílias mais ricas que representam 1% da população americana, cresceram 295%.

É a esse grupo de 1%, que se destinam os reembolsos impositivos do presidente Bush, principalmente quando se dá o maior resgate nominal da história e quem o dirige é o Secretário de Estado do Tesouro e ex-director executivo, durante sete anos do banco Goldman Sachs, entidade altamente beneficiada. O Fundo Monetário Internacional acredita que o pior da crise passou. O ex-vice-presidente do banco Goldman Sachs de São Francisco, Neel Kashkari, foi levado pelo Secretário de Estado do Tesouro para seu principal assessor e promovido dia 6, a chefe interino do Escritório de Estabilidade Financeira, que conduzirá o plano de salvamento de novecentos e quarenta e quatro mil milhões de dólares, sendo singular pela coincidência forjada. Mais estranho se torna, quando Neel Kashkari deveria regressar com o seu chefe, o presidente Bush e os restantes membros do governo até 20 de Janeiro.

A cadeia de injecções de capital desde dia 12, envolveu um total de 2,2 milhões de milhões de dólares na Europa Ocidental. Tem como explicação o facto do produto bruto da “zona euro” ser maior que o dos Estados Unidos. O Reino Unido contribui com quatrocentos e trinta e cinco mil milhões de dólares em garantias à banca privada, montante quase igualado pela França de trezentos e vinte mil milhões de euros e da Alemanha em quatrocentos mil milhões de euros. A virtual nacionalização ou estatização temporária envolve a “zona euro”, Estados Unidos, Reino Unido, Noruega, Islândia (estes dois últimos países não são Estados-membros da União Europeia), Brasil parcialmente e outros países de economias menores.

À primeira vista, poderia dizer-se que é o princípio do fim da crise financeira. Esse princípio deriva da base do recente pânico continuado em receio angustiado financeiro e bolsista. Accionistas, investidores, especuladores e bancos começaram a vender ou negaram-se a emprestar uns aos outros. Receavam que centenas de entidades financeiras cessassem os pagamentos. Tal grau de pânico, possibilitou o maior resgate em termos nominais, num total global de cerca de três milhões de milhões de dólares. Não se tratava de medo irracional, pois era impossível prever os alcances das perdas contáveis, as reservas existentes no sistema e a capacidade de repagamento, tendo-se optado por uma salvação total de livro fechado.

Ainda que, pese aos corifeus do mercado puro, só os governos podem realizar tais planos, como se viu na crise sueca da década de 1990 ou na japonesa de 1991 a 2002. Não existem outras fontes de recursos para contribuir com fundos frescos e garantias. No passado dias 11 e 12, catorze meses após rebentar a primeira crise (subprime), surgiu a vontade política de romper o círculo vicioso. Não coube aos Estados Unidos, com um governo lânguido, mas à “zona euro” liderada pela Alemanha e França seguido do Reino Unido, que puxou os Estados Unidos para intervirem. Tratou-se de uma maldade capciosa e ao revés. Não existia uma “terza via” nessas condições assumidas pela Europa.

O problema será como sair dessa opção, que representa mal, o começo de uma fase de recapitalização onerosa, não para os maus banqueiros, mas para os cofres fiscais, ou seja, os contribuintes e a economia real. O mais provável, de imediato, seja o aprofundamento da recessão em alguns países de economias desenvolvidas e países de economia emergente, sem o risco de uma crise completa. Convém lembrar que o uso do conceito de crise financeira tem sido abusado e maximizado pela linguagem inclusive a técnica, dado não ter atingido os países exportadores de petróleo na Ásia Central, Golfo Pérsico, Nigéria, China, algumas zonas do Sul e Sudeste Asiáticos.

Infelizmente a África subsaariana, com excepção da África do Sul, é um outro mundo cadinho de permanentes e irrazoáveis crises.

Infelizmente a crise financeira amortecida, mas continuada com a anterior subida do preço do petróleo e consequentes oscilações, a crise alimentar, o abrandamento da economia mundial, onde a recessão se faz sentir em alguns países, fez recuar os progressos realizados em termos de redução da extrema pobreza projectada para meados de 2015, passando de mil e oitocentos milhões de pessoas para mil e quatrocentos milhões de pessoas e plasmado no novo relatório da ONU sobre os Objectivos do Milénio, terá efeitos inversos, havendo fortes probabilidades de crescer o primeiro número em cerca de cem milhões de pessoas.

Se na América da enganadora pujança está a ponto de se viver um sonho projectado pelo Reverendo Martin Luther King em muitas partes do globo, incluindo-a está-se a ponto de viver novo e continuado pesadelo.

(continuação)

Jorge Rodrigues Simão, in HojeMacau", 24.10.2008
 

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