Thomas Jefferson
A semana iniciou-se em todo o mundo com uma desordenada subida das bolsas. As medidas anticrise decididas pelos quinze Estados-membros da “zona euro” devolveram uma relativa calma ao mercado, dado existirem condicionantes de carácter psicológico que actuam de forma contraditória e controlam os mecanismos de engenharia financeira que continuam a ser tomados, quer pela Reserva Federal dos Estados Unidos, quer pelo Banco Central Europeu (BCE) e alguns bancos centrais, no sentido de evitar o aprofundamento da crise e que ultrapassam em dimensão o razoável, para debelar a crise hipotecária e de crédito.
A falta de liquidez do sistema veio a ser agravada pelas ondas psicológicas em confronto, com efeitos e duração inesperados. Tal como a psicoterapia não cura males do foro psicológico ou neurológico em apenas dias ou semanas, faz despertar com vigor um novo ramo da psicologia pouco estudado, que é a psicologia dos mercados bolsistas, que se tivesse sido levada em conta, desde a crise de 1907, teria evitado perdas de volume incomensurável.
Após a memorável queda das bolsas de todo o mundo na denominada “Segunda-Feira Negra” de 6, o mercado de futuros antecipou igualmente, subidas significativas, uma vez que os mercados financeiros e interbancários começaram a reagir às medidas adoptadas pelos diferentes governos. Os planos de resgate na “zona euro” e Reino Unido, conjuntamente com a fusão Chrysler – General Motors, originaram subidas dos principais índices das praças accionárias globais.
Todavia, existe um largo caminho a percorrer para neutralizar a deterioração acumulada em duas semanas. O índice Standard & Poor’s (S&P) 500 teve na semana antecedente a pior actuação desde 1933, ano em que começava a depressão posterior ao “crash” de 1929-1932. O impulso partiu da Ásia Pacífico e contagiou por meio da Europa Ocidental, o restante do Hemisfério Norte. O estimulador foi a “zona euro” por ter adoptado medidas semelhantes na Ásia Oriental e no continente americano.
O banco Morgan Stanley caía 74%, depois de definir a participação da Mitsubishi de cerca de nove mil milhões de dólares. O euro recuperou as perdas face ao dólar e ao iene ocorridas nas últimas três semanas. Numa característica viragem a cento e oitenta graus, a maioria dos operadores e especuladores crêem que o conjunto de acções favoráveis evitará mais derrocadas de entidades financeiras. Tal crença não chegará aos aforradores e investidores tão rapidamente.
As condições criadas pelos Estados-membros concertados da “zona euro” foi importante e só o tempo dirá se foi decisivo, pois implicou uma injecção de mil e seiscentos milhões de euros ou seja, uma soma superior a dois mil milhões de dólares, que fez os índices americanos S&P 500 subir 9,12%, o Dow Jones + 8,6% e o Nasdaq composto + 9,2%. Os três índices americanos tinham caído a semana passada cerca de 18%;o Dow Jones 600, da Europa Ocidental -10%, o Hang Seng, de Hong Kong - 0,24%, o Straits Times, de Singapura -6,57%, o "Footsie", de Londres -8,26% e DAX, de Frankfurt -8,25%.
A Reserva Federal americana criou um acrescido factor de confiança relativa, com o dinheiro dos contribuintes, em que os maiores bancos centrais ou reservas federais, oferecerão às entidades privadas fundos sem restrições, garantias sobre futuras emissões de títulos de dívida de prazo médio com duração de cinco anos e compras de acções preferidas por parte dos governos. Assim, no dia 14, o índice americano Dow Jones sobe 11% e o índice japonês Nikkei sobe 14,5%, sendo a maior subida, em apenas um dia, desde a década de 1930 e depois de sete dias seguidos de perdas. Esta intervenção governamental sem precedentes foi bem recebida pelos investidores. Os índices europeus, a descida de forma moderada do barril de crude Brent cotado a setenta e nove dólares e a recuperação do euro no mercado de divisas como eco da recuperação dos mercados financeiros, revalorizando-se frente ao dólar, cotando-se a 1,365 dólares.
O presidente de Estados Unidos, confirmou que o país comprará acções de instituições financeiras em problemas, temporariamente, com o fim de as dotar de liquidez para fazerem face às restrições creditícias que vive o sistema financeiro. Esta medida faz parte da primeira fase do plano de resgate bancário da Administração Bush, de setecentos mil milhões de dólares. Trata-se de um investimento de duzentos e cinquenta mil milhões de dólares em que o Governo americano, por meio do Departamento do Tesouro, pretende injectar capital numa lista de bancos, que incluem o Citigroup, Morgan Chase, Bank of America, Wells Fargo, Goldman Sachs, Morgan Stanley, Bank of New York Mellon e State Street que fazem parte dos seiscentos e noventa e quatro mil milhões de dólares aprovados pelo Congresso dia 3.
A totalidade compreende reembolsos tributários de cento e quarenta e nove mil milhões de dólares, ou seja, oitocentos e quarenta e três mil milhões de dólares americanos. O Secretário de Estado do Tesouro, afirmou que nove bancos saudáveis aceitaram a participação estatal, que procura restaurar a confiança no sistema financeiro. A soma destinada a essas entidades será de cento e vinte e cinco mil milhões de dólares. Os títulos adquiridos pelo Tesouro não outorgarão o direito de voto, mas dão lugar a um dividendo anual do 5% durante os cinco primeiros anos e de 9% a partir dessa data. A contrapartida desta ajuda, é a limitação das remunerações dos altos executivos dos bancos.
Outra iniciativa temporária contra a crise, inclui à Corporação Federal de Seguros de Depósitos (FDIC), que garantirá nos próximos quatro anos a maior parte da nova dívida que seja emitida até 30 de Junho de 2009 pelos bancos e que ajudará a expandir o suporte das contas que não produzam ganhos. Há uma cláusula gatilho perigosa. O (FDIC) oferecerá garantias ilimitadas a colocações que não dêem lucros. O que significa, os papeis comerciais das empresas, semelhante a uma medida criada pelo Reino Unido e que a Alemanha não irá aplicar. Trata-se do reordenamento de medidas conhecidas ou esperadas e divulgadas pelo Secretário de Estado do Tesouro americano.
As entidades financeiras emitirão acções preferidas que as venderão ao Estado, sendo a metade dos duzentos e cinquenta mil milhões de dólares injectados nos nove bancos. O restante irá para instituições menores e caixas de poupança. Em teoria, o mecanismo será estruturado de maneira a que o Estado beneficie quando os bancos voltarem a produzir dividendos. Esta “europeização” do pacote altera muito o esquema inicial do Secretário de Estado do Tesouro. Todavia, suscitam-se dúvidas sobre o plano de nacionalizar os bancos. O “Washington Post” em recente editorial levantou a hipótese, de que por virtude do acordo proposto, existe o risco de que os bancos tomem o capital do governo e o utilizem para nivelar os seus balanços, e continuem a actividade sem retomar os empréstimos.
O Departamento do Tesouro não tem nenhuma garantia contratual específica que evite que tal suceda. O “Wall Street Journal” por sua vez, em texto recente, afirmou que a medida de nacionalizar parcialmente os bancos inter-relacionará o sector bancário com o governo federal por largos anos e dará aos contribuintes uma participação directa no futuro das finanças americanas, inclusive nas possíveis perdas. Na verdade, a relação entre os governos e os mercados está a mudar e se não for criado um sistema mundial de cooperação e supervisão, outra crise talvez pudesse aparecer com outros contornos e não se teria ideia dos riscos que as pessoas correriam, numa visão muito “gordoniana” e londrina da questão.
















