Barack Obama
First Presidential Debate
University of Mississippi
26.09.2008
O presidente francês, Nicolas Sarkozy, ao proferir o seu discurso na qualidade de presidente do Conselho Europeu da União Europeia, na 63.ª Assembleia Geral das Nações Unidas, a 23 de Setembro, com o apoio do Secretário-Geral da Organização e do presidente brasileiro, adoptou uma estratégia de ataque, que fez retirar o hemiciclo da modorra plácida e da palidez tradicional da crise em que vive, há vinte cinco anos. As palavras eram recheadas de um conteúdo particular, retomando as duras objecções da chanceler alemã, quanto à eficácia do modelo capitalista “à la mode” anglo-saxónica.
Ambos líderes sugeriram trabalhar arduamente, para atenuar os excessos dos mercados especulativos, desde Julho de 2007, no contexto de uma Cimeira do G-8, em que os Estados Unidos, Japão e Reino Unido, cavalo de Tróia daquele, na Europa, fizeram ouvidos de mercador. Meses volvidos, as mesmas críticas foram reforçadas pelos dois primeiros mandatários da Rússia.
O presidente do Brasil adopta igual posição, depois do presidente francês ter defendido a ideia do alargamento do actual grupo de países mais ricos do mundo e a Rússia, a um G-13 ou G-14, incluindo países como a China, Índia, México, Brasil e África do Sul, devido ao poder das suas economias emergentes e à numerosa população. A ideia do alargamento deveria ser aplicada, igualmente, ao Conselho de Segurança da ONU.
No sentido de reformular o sistema financeiro internacional, no sentido de cessar a anarquia especulativa, defendeu a realização de uma cimeira mundial até ao final do ano, para analisar e discutir a crise financeira internacional e através da comunidade internacional, em conjunto, reconstruir um capitalismo regulado, em que as instituições financeiras realizem as actividades que lhe são próprias por natureza, em prol do desenvolvimento económico, ao invés de se dedicarem à prática de operações especulativas.
O desenvolvimento económico criou novos centros de poder a nível regional, tornando os problemas mais complexos e com maior grau de dificuldade na sua resolução, pelo que a solução, depende da colaboração de todos os países a nível mundial e não do conflito; de outro modo, os países são incapazes de proteger os seus interesses e garantir uma melhor qualidade de vida dos seus nacionais, do ambiente e da gestão equilibrada dos recursos naturais no marco do desenvolvimento económico sustentável.
O presidente americano, sem entrar nos detalhes de um plano que não tinha e que dias depois falhou na sua América, limitou-se abstractamente a dizer que os Estados Unidos estavam a tomar as decisões apropriadas à contenção da crise. Crise financeira a nível global que têm no seu conteúdo outras diversas crises, como a energética, a alimentar, do ambiente, da exaustão dos recursos naturais, do comércio internacional patente na última ruptura das negociações na Ronda de Doha e que têm como consequência imediata, a regressão do desenvolvimento e da redistribuição justa e equitativa dos rendimentos do crescimento a nível global.
Os líderes francês, alemão e brasileiro, apresentam índices de popularidade nos respectivos países de quase 80% e defendem o modelo capitalista alemão. O colapso da União Soviética e o termo da Guerra Fia, fez que o socialismo não apresentasse a face do temor, aproveitado de imediato pelos capitalistas que começaram a opor-se ao pagamento de impostos, que seriam a “raison d'être” da subsistência do Estado de bem-estar social ou Estado-providência (Welfare State), iniciando um ataque contra os trabalhadores, impossibilitando o seguimento das políticas públicas, apanágio da social democracia.
Apesar da ideologização, a social democracia deixou raízes, sendo uma das fundamentais, a possibilidade de implementar a economia social de mercado. No capitalismo global e na lógica de mercado, não existem valores como a justiça e a responsabilidade social. No modelo alemão de capitalismo actual, o desemprego e a pobreza têm aumentado e a distância entre ricos e pobres tem-se acentuado.
A política neoliberal alemã, tem desmantelado a política social do Estado, nomeadamente, na assistência social e no seguro de desemprego. As novas ideias defendidas pelo presidente françês e seus “compagnons de route” são de certa forma, o reavivar do pensamento do presidente Charles de Gaulle, o que significa viajarmos a 1958, que tem como evento prévio a constituição da Comunidade de Carvão e do Aço (CECA) que entrou em vigor, a 25 de Julho de 1952 e teve o seu termo, a 23 de Julho de 2002.
Os seis países que fundaram a CECA, assinaram a 25 de Março de 1957, em Roma, os Tratados, que deram origem à Comunidade Económica Europeia (CEE) e à Comunidade Europeia da Energia Atómica (EURATOM), que entraram em vigor, a 1 de Janeiro de 1958, na matriz sócio-industrial criada pelo Chanceler Otto von Bismarck, que a partir de 1883 implementou um sistema de garantias sociais contra as fatalidades, começando pelo seguro de doença, suportado pelos trabalhadores, empresários e Estado; o seguro contra acidentes de trabalho, custeado pelos empresários e o seguro de invalidez e velhice com traços característicos de um capitalismo de Estado. A defesa do capitalismo humanista nunca existente na Alemanha, faz cair por terra, a tese esgrimida pelo presidente Nicolas Sarkozy e associados.
Numa ironia pré-concebida, o Secretário de Estado do Tesouro, Henry Paulson e o Presidente da Reserva Federal, Benjamin Bernanke, pretendem socializar as perdas do capitalismo financeiro. É martelando nessa contradição, que o idealista presidente francês, defende a tese, de que o governo americano transgride a natureza do seu modelo, baseado na não intervenção do Estado.
Na presente crise, de contornos distintos de 1929 e perante o silêncio do Presidente do Banco Central Europeu, Jean-Claude Trichet, ultramonetarista, o presidente francês intitula-se herdeiro do colbertismo, que foi um mercantilismo, desenvolvido por Jean-Baptiste Colbert, detentor de funções equivalentes a Ministro das Finanças do rei Luís XIV e teve como principal característica um proteccionismo rígido que criou sérios conflitos económicos.
Assim, o presidente francês contradiz-se, igualmente, ao defender o oposto dos princípios da Organização Mundial de Comércio (OMC), fazendo crer que a as negociações da Ronda de Doha falharam e o certificado de óbito foi passado, pondo fim às negociações sobre a liberalização do comércio agrícola, industrial e de serviços pela inflexibilidade da posição americana, em exclusivo, e da incompreensão dos países produtores de bens agrícolas, quando o pensamento françês e alemão dominam e influenciam o Conselho da União Europeia, a favor de uma Europa proteccionista, na defesa da manutenção dos subsídios agrícolas, devoradores de grande parte do orçamento comunitário.
Pensamento tresloucado, incompatível com um comércio internacional livre e justo ou solidário, levando a reboque livremente o Brasil, pertencente ao lado oposto, e de passagem retirando o tapete a um outro francês, o Director-Geral da OMC, Pascal Lamy, deixando a descoberto as suas ideias proteccionistas e pondo mais distante a possibilidade de um acordo de comércio global, dado ser cada vez mais difícil, reunir os requisitos necessários, que passam pelo consenso entre a União Europeia e os Estados Unidos; pela confiança absoluta dos países membros num sistema multilateral de comércio e pela supremacia das ambições dos países exportadores de produtos agrícolas face aos temores dos produtores nacionais.
A semana passada, terminou com sérias incógnitas, acerca da operação de resgate de seiscentos e noventa e quatro mil milhões de dólares. Os mercados financeiros mantinham uma expectativa positiva no dia 26 de Setembro, quando o Presidente George Bush convocou uma reunião, que terminou de forma mais grotesca e vulgar entre funcionários de altos cargos da administração e os deputados, que teve o ponto alto, quando o Presidente dos Estados Unidos afirmou: “Se não aparecer dinheiro, esta merda pode cair”. Tratou-se de uma bomba, que explodiu na Casa Branca e ficou exposta ao espanto do povo americano, recordando momentos graves, como os vividos aquando do “Escândo Watergate”, ocorrido a 17 de Junho de 1972, quando mercenários contratados pelos republicanos, invadiram a sede do partido democrata em Washington, com o fim de retirar o sistema de escuta colocado três semanas antes, destinado a espiar e desestabilizar a campanha da oposição. O Presidente Richard Nixon, acabou por ser reeleito, mas teve de renunciar ao mandato, a 9 de Agosto de 1974.
Os deputados abandonaram a Casa Branca, na esperança de conseguirem um consenso posterior. O palno do Secretário do Tesouro, ficava em águas de bacalhau, que são frias, ou seja, congelado. Não era certo, se pela noite os candidatos democrata e republicano, debateriam na Universidade de Mississippi a fenomenal crise financeira do ocidente. O candidato democrata tem um programa, que falta ao republicano.
Na sua chegada à Casa Branca, os sinais do mercado eram positivos e aguardava-se um acordo bipartidário para ser assinado e rapidamente o converter em lei. Sucede o imprevisto, o deputado do Estado de Ohio e chefe da sua bancada, diz que não apoiará o plano do Secretário de Estado do Tesouro, apresentando uma alternativa com menor intervenção estatal. O candidato republicano, que criticava o resgate, manteve-se em silêncio. Tudo ruiu entre recriminações, dentro e fora do salão oval. Após a reunião, o Secretário de Estado do Tesouro, ajoelhou-se perante o deputado, implorando para não mandar o seu plano às urtigas. Os traidores saíram dentro do partido republicano, que consideravam o plano de socialista.
Este escândalo e a anomalia do dia, tentava evitar a todo o custo o Presidente Bush, que se pode resumir num trocadilho de que havia total acordo, de que não havia acordo. A Wall Street, operava a meio gás, esperando o impossível. Encerrando com a realidade por diante, os painéis piscavam entre o nulo e altas de 1%. Era a especulação em sentido inverso, nas vésperas de um fim-de-semana muito incerto.
No dia 28 de Setembro, a Wall Street abre em queda livre, sofrendo as maiores perdas desde 1987, enquanto os deputados estudavam soluções e o governo anunciava as maiores calamidades. No dia seguinte, a proposta é derrotada, “softly” por 228 votos contra e 205 votos a favor. Situações muito sérias vivem-se pelo mundo financeiro nos últimos três dias, até que o Senado dos Estados Unidos acaba por votar com 74 votos a favor e 25 contra (entre eles 15 são senadores republicanos, 9 democratas e um senador independente) o plano de salvação. Os dois candidatos presidenciais aprovaram o plano, quando faltam trinta e quatro dias para os actos eleitorais gerais em que a economia é o tema dominante da campanha eleitoral. O projecto de proposta de lei, modificado depois do texto original ter sido recusado, a 29 de Setembro, será submetido a votação, dia 3 na Câmara de Representantes e aprovado.
O plano não será o remédio para todos os males. Os imóveis continuarão em baixa por longo tempo, a crise de liquidez permanecerá por muitos meses. As consequências estender-se-ão pelo mundo. A Ásia começa psicologicamente a acreditar na suficiência dos fundos de salvação. A economia real continuará em recessão durante o próximo ano. Sai definitivamente desprestigiado, ainda que aprovado o plano, o Secretário de Estado do Tesouro, o Presidente da Reserva Federal e o candidato da situação.
Nunca tantos bancos centrais injectaram tantos fundos para salvarem maus banqueiros.
















