“Russia was not afraid of anything, including the prospect of a new cold war.”
Dmitry Medvedev
27.08.2008
A invasão da Geórgia pela Rússia para além do termo do unilateralismo e da ilusão de domínio absoluto do mundo que os americanos tinham, após a ruptura da União Soviética em 1991, em termos geopolíticos, representa, o desmembramento do país invadido, que possivelmente perde a Abcásia.
O irreflectido e inconsequente acordo assinado a 20 de Agosto, em plena crise, entre a Polónia e os Estados Unidos com o intuito de instalar numa antiga base militar, perto da costa daquele país, no mar Báltico, até 2012, um escudo antimísseis de defesa estratégica, constituído por dez mísseis antibalísticos, como forma de proteger os Estados Unidos e os seus aliados na Europa de possíveis ataques de países considerados inimigos, como é o Irão, condena a Polónia ao isolamento entre a maioria dos seus pares na União Europeia (UE).
Os Estados Unidos comprometem-se a modernizar as forças armadas da Polónia, pelas facilidades concedidas, que desde 12 de Março de 1999 é membro da NATO, e 1 de Maio de 2004 membro da UE. A Polónia não tendo ultrapassado os traumatismos nazis e comunistas e com o fim de impor-se como potência entre a Rússia e a Alemanha, vai estabelecendo alianças estratégicas e criando relações de amizade com outros países da UE como o Alemanha, França e Reino Unido, e de aproximação com a Ucrânia e Estados Unidos.
A Rússia considera o acordo entre a Polónia e os Estados Unidos como provocação, tentando a UE, Bielorrússia e Ucrânia pacificar a situação, o que significa que os fornecimentos de crude e de gás natural não estão ameaçados, o que pode levar a uma subida especulativa do preços do barril de petróleo a curto prazo, apesar da tendência baixista dos preços, tendo o barril de Brent do Mar do Norte, descido abaixo da barreira de 100 dólares no dia 9, recuperando ligeiramente, depois da decisão da OPEP de reduzir a produção diária em 520000 barris, durante 40 dias, como forma de travar, ainda mais, a descida do preço do crude.
A Rússia desagrega a Geórgia, quebra a cooperação com a NATO e suspende as negociações com a OMC, pretendendo denunciar alguns dos acordos firmados, num processo de adesão iniciado em 1993, sendo o único país industrializado que não pertence à organização multilateral. A Duma, (Câmara Baixa do Parlamento russo) deve, primeiro, ratificar os acordos de adesão. Se tal não se der, a adesão à OMC ficará inviabilizada em termos técnicos.
Entretanto, o parlamento russo reconheceu a independência da Ossétia do Sul e da Abcásia. Perante tais factos, estar-se-á perante um cenário de nova Guerra Fria? Se vier a afastar-se formalmente da NATO e da OMC, conjugada com outras situações, parece não existirem dúvidas, de que o mundo se terá de preparar para reviver esses tempos idos, ainda que, com novos contornos.
A primeira situação, traduz-se na impotência do Conselho de Segurança da ONU, ter concluído a sua última reunião de emergência sobre a Geórgia a 22 de Agosto, sem ter chegado a um acordo, sobre uma resolução, que apoie o fim das hostilidades e o início de conversações para a solução do conflito. A segunda situação, manifesta-se no facto de a Rússia ter reconhecido unilateralmente a independência das duas repúblicas separatistas a 26 de Agosto, produzindo a indignação do mundo. A terceira situação, tem a ver com o facto de a Rússia ter estabelecido, dia 9, relações diplomáticas com as duas regiões separatistas do Sul da Geórgia, avisando que o seu exército iria ali permanecer por largo tempo, não como forças de manutenção da paz, mas forças armadas, após ter concordado no dia anterior com a UE sobre a retirada dos seus militares no prazo de um mês. A quarta situação, tem a ver com as declarações do presidente russo, em resposta à indignação mundial de reconhecimento das duas regiões pró-russas, que legalmente constituem parte do território da Geórgia, de que a Rússia não receava uma nova Guerra Fria.
Os russos atribuem a culpa da possibilidade do início de uma nova Guerra Fria aos Estados Unidos e seus aliados, como a Polónia e o Reino Unido. A diplomacia da UE reagiu tardiamente aos acontecimentos, o que permitiu a Rússia dar o primeiro passo político, pondo o exército em movimento, concretizando os seus objectivos e o dos separatistas.
Os Estados Unidos vivem na obsessão de ter um escudo nuclear sobre as fronteiras da Rússia, Bielorrússia e Ucrânia. Esquecem-se que a Rússia tem bases estratégicas no Báltico, em Kaliningrado, ao Norte da Polónia e a Ocidente da Lituânia. A UE receia que a Rússia não se limite apenas, a reabsorver a Ossétia do Sul e a Abcásia e, eventualmente, a Arménia. Tendo como modelo simbólico, a extinta União Soviética, talvez pretenda um conjunto de satélites, como a Bielorrússia, o enclave de Transdnestria, situado entre a Ucrânia e a Moldávia, não reconhecido, e quiçá a totalidade da Geórgia.
A Rússia apoia as minorias de língua russa na Ucrânia (quase um quinto da população), na Letónia (um terço da população) e na Estónia (um quarto da população). Na sua parte europeia, a Gazprom tem maior importância que o sonhado escudo da NATO, o que é aceite pela Alemanha e pelos países escandinavos onde o belicismo da Polónia não tem adeptos. Na sua parte asiática, sobejam os aliados reais como a China, Irão e Vietname e os potenciais na Ásia Central, e o Afeganistão se vier por hipótese a ser ocupado pelos rebeldes Mujahedines e outros armados pelos russos.
Os Estados Unidos não têm forma de evitar que a Rússia volte a ganhar a antiga influência na Eurásia. A Alemanha e a França, que tem a Presidência do Conselho Europeu, não impuseram durante e após a invasão da Geórgia, novas sanções à Rússia. Os dois Estados-membros mais influentes da UE, não se aliaram às pressões americanas e inglesas sobre o autoritário Estado russo, o que tem sido bem demonstrativo face ao Irão e convertem a NATO, num organismo mais anacrónico, num mundo multipolar. O primeiro-ministro russo, acusou a UE de servir os interesses exclusivos dos Estados Unidos, e entre as diversas disparidades políticas da “Europa Unida” em matéria de Política Externa e de Segurança Comum (PESC) - 2.º Pilar da UE, o Ministro dos Negócios Estrangeiros da Alemanha, defendia a não aplicação de sanções ao invasor.
A Geórgia, um pequeno Estado, de forma resoluta e obstinada, cortou relações com a Rússia, dependendo da ajuda humanitária, não bélica, fornecida pelos navios americanos e aviões franceses. A França, decidia não aplicar sanções e esperar os acontecimentos. A NATO deixa para melhor oportunidade, que talvez nunca venha acontecer, a instalação do escudo nuclear sobre as fronteiras ocidentais da Rússia e da Bielorrússia.
Neste contexto, a Polónia brinca com o fogo e a maioria dos seus parceiros da UE, não a apoiam ficando isolada com os Estados Unidos e Reino Unido, devido à extrema dependência europeia dos hidrocarbonetos russos, que faz pesar o prato da balança do Conselho de Segurança da ONU, o que nesse particular, a UE pode-se equiparar à Ucrânia e a Polónia tem menos força que um tigre de papel.
Todavia, as atitudes contraditórias continuam a subsistir, como por exemplo, a da Chanceler alemã que talvez desconheça que cerca de 42% do gás natural consumido, provêm da Sibéria, defende a ideia de que a NATO aceite a adesão da Geórgia, ou o que dela restar, o que seria um grave erro, sem fazer referência à Ucrânia, que seria erro maior. Esquece-se que a Alemanha é parceira da Rússia, conjuntamente, com outros países, no mega gasoduto sob o mar Báltico e que os suecos podem criar obstáculos, a qualquer momento, por razões técnicas. O gasoduto passa diante do território russo de Kaliningrado, a Norte da Polónia e a Ocidente da Lituânia e das suas duas bases nucleares. Por outro lado, muito do petróleo extraído entra no “pipeline” em Azerbaijão, atravessa a Geórgia e a Turquia, abastecendo a Europa.
A Rússia e a UE não conseguiram chegar a acordo no dia 8, sobre a independência das duas regiões georgianas. Os russos fecharam a reunião, afirmando que só existiria possibilidade de diálogo, considerando tais regiões como sujeitos autónomos de direito internacional.
Quanto ao plano “Medvedev-Sarkozy”, a vigorar desde 12 de Agosto, a Rússia concordou em retirar o seu exército dos cinco postos de controlo na linha Poti-Senaki, dentro da zona nuclear da Geórgia, 10 dias após a instalação de um mecanismo internacional. A 1 de Outubro, serão enviados para a área de conflito entre a Geórgia e a Ossétia do Sul, 200 observadores da UE, e que no prazo de um mês estaria completa a retirada total do exército invasor de solo georgiano, e que o país invadido faria regressar aos quartéis o seu exército a 1 de Dezembro. Satisfeito, o presidente francês acredita nessa cedência. Ingenuidade, pois no dia seguinte os russos mudam de atitude e decidem o contrário.
Existe apenas um vencedor neste conflito que cria um mundo multipolar e que prenuncia o início de nova Guerra Fria, é o presidente da Geórgia que não cedeu na luta pela soberania do seu país, da liberdade e da democracia, face à impassividade do Ocidente. Entendeu que por vezes vale mais retalhar a superfície territorial, que inexistir.
















