Nicolas Sarkozy
Le Monde, 01.09.2008
O mês de Agosto foi marcado por mais um episódio das histórias que encadernam as relações entre a Geórgia e a Rússia. A NATO numa atitude previsível suspendeu a cooperação militar com a Rússia como forma de represália por ter ocupado a Geórgia apoiando os separatistas da Geórgia, Abcásia e Ossétia do Sul.
A Secretária de Estado americana instigou a União Europeia (UE) a ser tão agressiva como a Polónia no usual estilo de falta de moderação, sempre patente na relações diplomáticas em momento de crise e que constitui um dos seus mais graves erros com consequentes e avolumados prejuízos a nível económico. Será mais lucrativo aos Estados Unidos ao invés de instigarem a UE ao belicismo, observarem e terem um comportamento prudente em relação à Ucrânia, aliado da Geórgia que prefere uma relativa neutralidade, ainda que, tenha condenado firmemente a invasão do seu aliado. Num primeiro plano, porque depende do monopólio estatal petrolífero russo, a “Gazprom”, e num segundo plano, porque esta crise caucásica não é global, mesmo afectando uma região que se estende das margens do mar Cáspio às fronteiras da Turquia, Irão e Afeganistão.
A pequena guerra incendiada pelas minorias separatistas russas da Geórgia, em favor da Rússia, internacionalizou-se e a primeira conclusão que se pode retirar é de que o longo pós-guerra bipolar entre os Estados Unidos e a União Soviética/Rússia, seguida de um “momentum” unipolar liderado pelos Estados Unidos significa o fim da “pax americana” nas suas duas formas.
A actual impotência da NATO espelha ambos os factos, perdendo força e quiçá deixando de ser viável a sua continuidade, não sendo os Estados Unidos a superpotência no plano geopolítico.
No plano económico, o futuro da globalização antevê-se frágil. Por um lado, a UE depende de hidrocarbonetos russos e não existe escudo estratégico antimísseis eficaz, perante o arsenal táctico nuclear russo. Por outro lado, se a Rússia pode dirigir como propriedade sua a região Caucásica, Chechénia, Tajiquistão, Abcásia, Ossétia e a Transcaucásia, composta pela Geórgia, Arménia e Azerbaijão, nada impede que a China, hipoteticamente, possa vir a tentar idênticas acções em Taiwan, Mongólia, Birmânia, Coreia do Norte ou Nepal, onde acaba de se instalar um governo de coloração maoísta.
Os mais conceituados analistas económicos e financeiros dos mercados bolsistas de “Wall Street” e da “City” crêem que os factores geopolíticos cedem à globalização económica. A história tem caminhado em sentido oposto e o tipo de globalização de mercados iniciado na década de 1970, muito anterior ao colapso da União Soviética nos finais de 1991, provoca uma reacção incompreensível, senão impossível da existência de conflitos na Europa Ocidental, ainda que perdurem nos Balcãs ou na América do Sul.
A China não se dissolveu como a União Soviética, sendo uma potência económica mais renitente que Rússia à globalização e à democracia. A Rússia considerava-se uma potência caucásica durante a segunda globalização capitalista. Um progresso que começou com Imperatriz Catarina II, na segunda metade do século XVIII e que culminou com a captura do Imã Shamil, líder das tribos chechenas e daguestanesas. Posteriormente, no primeiro ano do século XIX, capitulam a Geórgia e o actual Azerbaijão. O vagaroso desmembramento do império Otomano, a partir do último quartel do século XIX, permite à Rússia assenhorear-se do Norte Oriental da Arménia, completando-se a geografia que Vladimir Putin tenta reconstruir.
As tensões entre a Rússia e os Estados Unidos por causa da Geórgia e Polónia, provocaram o aumento do preço do barril de petróleo na semana da invasão da Rússia que somado à debilidade do dólar provocou a descida no preço do crude, que a 11 de Julho era vendido a quase 148 dólares o barril, passando para 120 dólares, a 8 de Agosto, e a 2 de Setembro cotava-se a 106 dólares, ou seja, uma queda de 42 dólares por barril, no espaço de 42 dias. O euro que se encontrava forte, apresenta no dia 3, o valor mais baixo desde Janeiro face ao dólar. Perante tal incerteza, caracterizada, pelas oscilações bruscas da economia global, os investidores não sabem que caminho seguir. É um tempo de encruzilhada e espera a curto prazo, que aproveita os mais cautelosos, defensores de a “raison d'être” de tais maleitas nos mercados tem carácter geopolítico.
A UE, por meio dos Chefes de Estado e de Governo dos vinte e sete Estados-membros, reunidos no Conselho Europeu Extraordinário de Bruxelas, decidiram por unanimidade, no dia 1, que a Rússia devia retirar-se de imediato da Geórgia, respeitando a integridade territorial do país, condenando o uso desproporcionado da força e dos meios usados, como uma reacção militar desmedida que provocava uma preocupação profunda na Europa e criava uma suspeição sobre as suas reais intenções.
O presidente francês, presidente em exercício do Conselho Europeu até 31 de Dezembro, afirmou que a UE não defraudaria as expectativas da Geórgia, não sendo imposto, todavia, alguma sanção, como defendiam o Reino Unido, Polónia e Suécia. A sua deslocação à Rússia e Geórgia, dia 8, acompanhado do Presidente da Comissão Europeia e do Alto Representante para a Política Externa e de Segurança Comum (PESC) criada pelo Tratado de Amesterdão, terá como fim, verificar o cumprimento íntegro do plano de paz, negociado em meados do passado mês. Trata-se de garantir a saída rápida dos militares russos que ocupam a Ossétia do Sul e uma “zona tampão” de 7 kms em território georgiano, tentando criar os meios para a realização de uma cimeira internacional que possibilite um acordo com vista à estabilidade das regiões da Ossétia do Sul e da Abcásia. A solução do conflito deve basear-se na independência e integridade territorial da Geórgia e não na política de factos consumados.
Robert Kagan no “Washington Post” de 11 Agosto, citado por Serge Alamini em “Russia gets its act together”, da edição de Setembro, do “Le Monde Diplomatique”, afirmou que esta guerra não começou por causa de um erro do presidente georgiano Mikheil Saakashvili, mas de uma guerra que Moscovo tem vindo a provocar há algum tempo.
Aparte a exigência de retirada das forças militares russas, para as posições anteriores ao começo das hostilidades, sem adiamento, e da assistência às vítimas, a urgência reside em pôr em acção o mecanismo internacional de supervisão, no qual a UE está disposta a participar e que está previsto na cláusula quinta do acordo de cessar-fogo não cumprido e destinado a substituir as tropas russas que ocupam as zonas situadas, para além dos limites administrativos das regiões separatistas georgianas da Ossétia do Sul e da Abcásia.
As negociações com a Rússia, que têm em vista a celebração de um acordo de associação e colaboração, inicialmente previsto para o dia 15, estarão condicionados à constatação por parte da UE, da retirada das tropas russas.
A Cimeira do Conselho Europeu Extraordinário da UE, mostra que está unida, face ao conflito da Geórgia e suas consequências, e é a garantia de uma solução para a paz e a estabilidade na região do Cáucaso. Os vinte e sete Estados-membros foram unânimes na conveniência do diálogo e entendimento com a Rússia, como um agente fundamental para a estabilidade e segurança na Europa e para a economia do conjunto dos países europeus, que os ingleses e polacos tiveram de engolir e pôs os cabelos de pé aos americanos. Existem mais faces deste prisma incandescente com outras tonalidades que será bom considerar, a bem da Europa de Estados-Nação. No meio da tragédia surge o humor europeu ao afirmar que enquanto os russos têm gás, mas a UE tem um peso financeiro treze vezes superior; é 3 vezes mais populosa e adquire mais de 50% das exportações russas. O inverno será longo, sem dúvida, se os russos fecharem as válvulas do gás, mas os pratos europeus estarão sempre cheios, ao contrário dos deles!
















