Doug Henwood
A onda de turbulências financeiras, significa para o presidente George Bush, um final de mandato, pior que a do presidente Herbert Hoover, em 1933, igualmente do partido republicano. A sua longa administração, iniciou uma outra etapa do capitalismo estatal, pondo termo ao modelo anglo-saxónico, esboçado pelo monetarismo neoclássico, sem dar uma explicação das razões da mudança aos contribuintes americanos.
Entende, que tal incumbência pertence ao Secretário de Estado do Tesouro, Henry Paulson, ex-presidente do Goldman Sachs, principal banco de investimentos da Wall Street, que tem agido com pragmatismo, mesmo que signifique afastar-se das suas ideias de republicano convicto, tentando inventar soluções, num esforço denodado, em socorro de um sistema financeiro, ameaçado de implosão, e ao presidente da Reserva Federal, Benjamin Bernanke, experiente universitário em crises financeiras teóricas.
O Secretário de Estado do Tesouro americano, ao longo dos seus 32 anos ao serviço do Goldman Sachs, conseguiu amontoar um enorme portfólio de acções calculado em quinhentos milhões de dólares, que valorizadas e somadas a outro património, constituem uma fortuna de quase setecentos e vinte milhões de dólares, nunca explicada, e sem se saber onde está depositada. Talvez nas Bahamas, para confiança do sistema! Tem a característica, de não deter poder de comunicação inerente ao cargo, não dialogando com os deputados, senadores, dirigentes políticos e com os cidadãos.
Tal, sucede com Benjamin Bernanke, que não consegue articular respostas precisas, se inquirido pelos deputados e senadores. É sintomática a resposta abstracta, dada ao candidato da situação, John McCain, quando o interrogou acerca de quando, ou de que forma é possível cessarem as turbulências do sistema financeiro, que tiveram o seu início, em 16 de Agosto de 2007.
O drama da crise é ilustrado pelos italianos, através da imagem do presidente George Washington, numa nota de um dólar, e à correspondência que teria, actualmente numa série de notas com a imagem de George Bush, aliada à falta de liquidez nos bancos americanos, que os italianos jocosamente, concedem um empréstimo e pedem a correspondente garantia, ao qual o presidente Bush, oferece a hipoteca sobre a Casa Branca, com a condição de nada ser dito a John McCain.
As largas diferenças existentes entre 1929 e 2008, caracterizam-se pelo facto, de na primeira crise mundial, não existirem jogadores, como no actual “poker” financeiro global, como a Rússia, China, Índia, Japão, Brasil e os países exportadores de petróleo, associados a esta desordem monetária, que se espera não chegue ao caos, pelo que os acontecimentos nas bolsas de Wall Street e da City, são tipos clássicos, nestas situações. Menos clássico é o movimento de corrida aos bancos, como o ocorrido ao Bank of East Asia, terceiro do Japão, confortavelmente sólido e que devido ao rumor, necessitou de intervenção policial para conter os boateiros e os clientes, quer no país sede, quer em Hong Kong. Essa sintomatologia, deu-se no final da tarde, em alguns bancos de Macau, por simpatia ou devido às pressões atmosféricas trazidas pelo anticiclone acabado de passar.
Na ironia cruel das situações trágicas, a indústria bancária, só pariu duas borbulhas no espaço de doze anos, a das empresas ponto.com (telecomunicações) e a do sector imobiliário. A última termina, numa dupla crise, de hipotecas e iliquidez. A causa final é remetida para um excesso de ambição em contextos mal ou não regulados.
Os grandes pensadores dos dois últimos séculos, denominavam de capitalismo selvagem, ou, singelamente, de pura especulação. Actualmente, o tempo de crise, traz uma nova existência, neurose ou mania de tudo ser reduzido ou explicado pelo recurso a hipotecas de má qualidade (subprime), ou seja, por devedores de escassa solvência e cotações bolsistas que (como as empresas punto.com, anteriormente) atingiram níveis absurdos.
Nesse tabuleiro apostaram bancos, como o de Bear Stearns, a American International Group, o HBOS, a Merrill Lynch comprada pelo Banco of America, a Wachovia, o Citigroup, e muitos mais. A Morgan Stanley e a Goldman Sachs, são os únicos bancos de investimento americanos, que sobreviveram ao terramoto, com perdas de 44% e 23%, respectivamente, como reflexo da conjuntura actual do mercado, do aumento dos custos de financiamentos e do receio dos investidores a novo vendaval. O HBOS é uma das maiores instituições financeiras do Reino Unido, que dia 23, viu cair as suas acções, mais de 39%, em Londres, o que reavivou os receios no sector e provocou novas quedas das bolsas, na Europa.
Os índices europeus, nesse dia, iniciaram a sessão em alta, animados pela intervenção da Reserva Federal na AIG, evitando a falência da maior seguradora dos Estados Unidos, ao negociar a concessão de um empréstimo de oitenta e cinco biliões de dólares, enquanto o Lehman Brothers ficou abandonado à sua sorte. O desaparecimento do Lehman Brothers, apenas beneficou a Goldman Sachs e o Secretário de Estado do Tesouro, o que constitui uma terrível ironia do destino, e que Henry Paulson foi enfático a referir que o desmantelamento da primeira instituição, era um acontecimento triste, porque infelizmente não houve nenhuma outra instituição que o quisesse comprar.
Tal, não aconteceu na maioria das economias emergentes ou periféricas. Não pelo facto de que os segredos e os riscos só entretêm os desorientados portadores de títulos ou acções, mas simplesmente, porque não têm fundos nem crédito para jogar no grande casino ocidental. Ao desmoronar-se a pirâmide hipotecária, as acções, os pacotes de obrigações e até os contratos derivados, nomeadamente, contratos de futuros e de opções, que se apresentam como fantasmas que borboleteiam, desde o final da década de 1980, e que nunca é aliado e divulgado as perdas do valor real.
Os bancos comerciais que financiavam essa grande aventura, deixaram de emprestar. Esse facto, produziu duas situações, a primeira, de criar a actual crise de liquidez, e a segunda de pôr as entidades emissoras e reguladoras governamentais perante o dilema de serem meros intermediários do dinheiro (daí não serem uma indústria), podendo fazer tudo o que quisessem com o mesmo, menos sentarem-se em cima, como afirmava John Kenneth Galbraith. É neste estádio, que aparece em cena o Estado, que os neoclássicos tinham reduzido ao papel de mero espectador sem chegar aos extremos actuais.
O ex-secretário do tesouro americano de 1995 a 1999, Robert Rubin, que trabalhou também, durante 26 anos no Goldman Sachs e que Paul Krugman tanto o critica, pela esvaziada teoria que tem o seu nome, resumidamente conhecida, pela da melhor prática económica, afirmando que era muito limitada e que dela não iria nascer qualquer solução séria, para fazer face à vulnerabilidade dos mercados mundiais. Não estava errado Paul Krugman, porque até ao presente não existe mecanismo algum, de engenharia financeira, com os efeitos milagrosos que se pretendem. O que significa, que irão surgir muitas mais crises globais, devido a duas condicionantes chamadas, mercado e psicologia.
O Banco Central Europeu (BCE) injectou para cima de quarenta biliões de dólares no sistema financeiro, dia 22, a uma taxa marginal de 3,25% e com maturidade a um dia, para atenuar as tensões nos mercados financeiros. O BCE na semana passada tinha injectado em duas operações oitenta biliões de dólares. Os efeitos são mínimos.
Existem defensores de uma nova Resolution Trust Corporation (RTC), usada há vinte e cinco anos, que serviria para comprar activos maus e limpar o sistema. Entre 1989 e 1995, a RTC conseguiu resolver o problema de setecentas e cinquenta instituições de crédito do sector imobiliário, com activos que somaram cerca de quatrocentos biliões de dólares, e debelou a crise na poupança e nos empréstimos para compra de habitação e denominados na altura de títulos do ferro-velho. Mesmo que se imitasse esse mecanismo heterodoxo, seria preciso reduzir as colocações apoiadas, hipotecas sem valor, seguradoras imprudentes e fundos de fundos de cobertura ou seja, derivativos.
Os dias gloriosos dos fundos de cobertura pertencem mais ao passado. Ganhar dezenas ou centenas de milhões de dólares espalhando derivativos, que são instrumentos extremamente voláteis, parece vir a ser um sonho dourado da Wall Street. Repentinamente, o grande interveniente de um mundo especulativo de dois biliões de dólares começa a depara-se com sérios problemas. Nos seus altos parâmetros de avaliação, os fundos de cobertura estão a passar mal de saúde. Tais instrumentos financeiros criados para magnatas, que reuniram fundos de pensões, ou seja trazidos de pessoas vulgares, é de crer que ganham, quer o mercado esteja em alta, quer em baixa. Quem quiser aprofundar o tema, recomenda-se o livro “WALL STREET – How It Works and for Whom”, de Doug Henwood.
A realidade é que as ideias especulativas, que alimentadas fazem falir bancos, ruir fortunas, destruir empresas e perigar o crescimento de países são uma pura tolice, porque sempre sucumbiram, não existindo qualquer onda especulativa que tivesse sobrevivido por largo tempo. Talvez um detalhe pequeno de largo alcance para explicar o motivo por que diversos fundos sejam arrastados na dupla crise que o Ocidente vive, a imobiliária e a creditícia. Se os neoclássicos falham, também não será a ideia maximalista de Joseph Stiglitz, de que muita parte da solução reside no bom entendimento entre as instituições bancárias e os governos, motivo pelo qual vive mais despreocupadamente a Ásia.
















