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Entrada Perspectivas O erro americano

O erro americano

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“United States has been heavily influenced by external politics”.

Samuel Walker

A luta pela influência económica vai caracterizar o cenário geoeconómico e político dos próximos vinte e cinco anos e terá três participantes, a União Europeia (UE), os Estados Unidos e a China sem ligações com o terceiro mundo na classificação atribuída por Alfred Sauvy na década de 1950, que separava o mundo em primeiro mundo, ou seja, democrático, de economia livre de mercado, capitalista e desenvolvido, o segundo mundo constituído pelos países comunistas de economia planificada e o terceiro mundo que abarcava os países pobres e atrasados.

O primeiro mundo era constituído pelos Estados Unidos, pelos países da Europa Ocidental, Japão, Austrália e Nova Zelândia. O segundo mundo, constituído pela ex-união soviética e países do Leste Europeu. O segundo mundo veio quase a extinguir-se, tendo como marco simbólico a “Queda do Muro de Berlim” em 9 de Novembro de 1989, existindo resquícios em alguns países como a Coreia do Norte e Cuba e algumas das características convivem com estruturas capitalistas em alguns outros países.

O apelidado de terceiro mundo, constituído por países de África, Ásia, América do Sul e alguns países da América Central como o México. O terceiro mundo continuou a ser no subconsciente económico e político dos países mesmo na reclassificação dada pela Teoria do Desenvolvimento da década de 1960 em que são classificados com maior ou menor exactidão em países desenvolvidos, em vias de desenvolvimento e subdesenvolvidos, o esqueleto do primeiro mundo. Todavia, o terceiro mundo continua a existir e engloba fundamentalmente cinco regiões como a Ásia Meridional ou Austral e Oriental, com excepção da China, Ásia Central, Médio Oriente, Europa do Sudeste, América do Sul e Caraíbas e a África Subsaariana, não exclusivamente Os dois países e um bloco regional em disputa representam uma evolução porquanto, grande parte dos países do segundo mundo passou ao primeiro mundo com a “Queda do Muro de Berlim”, adopção de regimes democráticos e economia de mercado capitalista e que culminou na integração na UE a 1 de Maio de 2004 e 1 de Janeiro de 2007.

A China que pertencia ao terceiro mundo passou ao primeiro mundo vindo a ocupar a posição do Japão a curto prazo. Os dois países e a UE irão procurar alianças com um ou mais impérios, actualmente entendidos por blocos regionais para se desenvolverem a influência que essas alianças exercerão nas três potências em disputa e que não se fundará no poder militar, mas numa união vasta de variáveis como a produtividade, parcelas do mercado global, inovação tecnológica, recursos naturais e população.

Nesse processo terão um peso enorme de variante única a vontade nacional e as aptidões diplomáticas. Estes países e a UE administram o poder de formas muito diferentes. Os Estados Unidos continuam agarrados ao paradigma das coligações, a favor da discussão e assinatura de acordos por assunto como por exemplo, contra o terrorismo, pela abertura dos mercados, etc. A UE privilegia um modelo com base em consensos, utilizando o seu enorme mercado, o pluralismo e as suas atractivas políticas socioeconómicas, menos ligadas ao sector privado para conquistar parceiros e aliados. A China usa um modelo conciliador consultivo flexível, que depende do interesse de outros países em consigo negociar dadas as suas vantagens comerciais ou económicas.

O modelo chinês que ao Ocidente tem sido objecto de muitas controvérsias por afastar temas que são muito importantes como a questão dos direito civis, ecologia e transparência na administração, tem vindo a melhorar significativamente na primeira e última área. Essas variáveis são de especial importância aos Estados Unidos se resolver adaptar o modelo de coligações a um mundo em transformação. A bandeira americana desfraldada a respeito dos direitos civis encobre áreas sombrias que são reveladas sob a forma de violência legal, coerção psicológica e física por agentes da autoridade e departamentos governamentais revelada nos julgamentos dos seus tribunais. Quanto à ecologia, os Estados Unidos tem sido o país que mais resistência ofereceu à adesão ao Protocolo de Kyoto. Quanto à transparência continuam por explicar as ligações petrolíferas da família Bush a determinadas famílias árabes a bem do petróleo e do lucro pessoal, a verdadeira razão da invasão ao Iraque e as estranhas ligações do Vice-Presidente Dick Cheney e da Halliburton ao Médio Oriente.

Carece de explicação o uso do poder militar dos Estados Unidos em defesa de interesses pessoais e de multinacionais ligadas ao poder. A grande questão é acerca da possibilidade dos Estados Unidos dominar as suas tendências geoestratégicas e privilegiar os seus interesses em matéria diplomática ou económica, ainda que, seja difícil fazer amigos. Será que uma das soluções futuras passará por conciliar a sua política externa com a das suas empresas num quadro global mais competitivo? Na década de 1990 os Estados Unidos presumiam que a globalização era vantajosa porque era americana. Nesta década o fenómeno da globalização conduziu ao decréscimo do poder americano e não promoveu os seus valores em maior grau que o de outras culturas. Os Estados Unidos têm uma ideia errada dos acontecimentos que extrapolam as suas fronteiras, fundamentalmente onde existem formas de globalização europeia, chinesa ou indiana, ignorando as características gerais e especiais que o mundo apresenta.

Agradando ou não, aos americanos e seus aliados por conveniência, actualmente os Estados Unidos transformou-se em uma das muitas marcas que concorrem no mercado global. Uma outra situação de realçar é a cada vez maior frequência em que os Estados Unidos se encontram sós, militar, política ou economicamente, agrade-lhes ou não. Não se está a defender a tese de o mundo ficar antiamericano, mas a contestação continua a crescer se os Estados Unidos não inverterem rapidamente a sua política externa e económica. Uma simples alteração de políticas não resolveria um problema crítico, e considerando que o sector privado tem uma visão do mundo demasiado centralizada no país. Talvez porque foi dessa forma que se desenvolveram as ligações entre o governo e as empresas privadas. A interpretação do sector privado aos acontecimentos externos é baseada em termos da América contra os demais países, empresas ou cidadãos estrangeiros. Os estudos efectuados por universidades americanas apontam de forma clara que esse tipo de apreciação é antiquada e interessa aos próprios empresários americanos as ajudas que possam mudar os esquemas mentais dos que decidem sobre a política externa americana.

Deve haver uma adaptação de pensamento, que é o facto de não existirem interesses americanos, mas globais. Será tempo dos dirigentes das empresas americanos mudarem a propaganda interna, de que se fazer algo, será bom para os Estados Unidos e substituí-la pela de fazer algo será bom para o seu negócio, que é global. Os americanos devem deixar de recear o mundo ou de oscilar entre o compromisso e o isolamento e entender que quer a UE como a China oferece incontáveis escolhas em matéria de segurança, comércio, economia, assistência tecnológica, etc. Os Estados Unidos neste novo contexto para voltarem a ser atractivos terão de reactivar a sua economia, reduzir as desigualdades entre ricos e pobres, ser mais responsável em termos fiscais e abandonar a posição de maior devedor no mundo. Existe um espaço geográfico de natural influência que é pertença de cada uma das três potências. A UE exerce-a no Sudeste da Europa ou Balcãs, Cáucaso e África Setentrional. A China tem influência na Sibéria Oriental, no Sudeste Asiático, alguns países da América do Sul e África.

Os Estados Unidos deveriam criar uma União da América do Norte diferente do tratado homónimo que permitiria rentabilizar os recursos do hemisfério ocidental, como os combustíveis do Canadá, o sector privado e o potencial sul-americano com os países amigos dos Estados Unidos. Pela forma como trata o seu maior aliado no continente sul-americano, a Colômbia, será difícil mudar o dito mecanismo mental. A realizar-se, seria um projecto geopolítico reduzido a um hemisfério estável e pró-americano.

O futuro do mundo só é possível ser alterado se mudar a política externa americana no hemisfério ocidental. Se o governo americano resolvesse os problemas com a Venezuela; se as reservas petrolíferas brasileiras são as que presumem e os hidrocarbonetos do Canadá fossem explorados a custos moderados, os Estados Unidos não precisariam de expandir os seus interesses pelo mundo e preocupar-se com a China, Médio Oriente ou UE.

Jorge Rodrigues Simão, in "HojeMacau", 18.07.2008

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