Peter Tertzakian's
A China é o segundo maior consumidor mundial de hidrocarbonetos a seguir aos Estados Unidos. O seu crescimento em termos de PIB nas últimas três décadas, deu-se a um ritmo acima dos 9% e o seu desenvolvimento industrial impelido pela vasta transição do uso da bicicleta nas grandes cidades aos transportes urbanos e automóveis, exigiram necessidades cada vez maiores de combustíveis, prevendo-se que em 2020 correspondam a um aumento de consumo acima dos 140% comparado com o actual, significando um aumento acima dos 7% anuais, ou seja, um crescimento sete vezes mais rápido que os Estados Unidos, que em Março apresentaram desde 1979 a primeira redução no consumo de hidrocarbonetos em cerca de 4,5%.
Assim, no dragão oriental circularão nos próximos dois anos cerca de oitenta vezes mais veículos que em 1990 e prevê-se que em 2020 circulem mais automóveis que nos Estados Unidos ou União Europeia. Existe uma razão para este crescimento desmedido de compra de automóveis, que é o facto, de ao contrário da maior parte do mundo, os combustíveis na China serem baratos. Os preços praticados na China situam-se entre os mais baixos dos países importadores de ouro negro. Qualquer coisa como 1/3 do nível de preços do petróleo bruto – crude não refinado – fornecido à “zona euro” e Japão, que aplicam fortes impostos como forma de diminuir o consumo. As capacidades da China em termos de auto-suficiência malogram-se dadas a exiguidade das reservas conhecidas face à procura, que a manter-se a este ritmo atingirá a ruptura nos próximos vinte anos.
Logo, a primeira conclusão é que a China vai ter por questões de escassez de reservas de diminuir o seu crescimento. A segunda questão é de cariz ambiental, dado que tal consumo aumenta exponencialmente as taxas de poluição ambiental atmosférica por via das emissões industriais e de veículos automóveis, fazendo diminuir a qualidade do ar e por consequência a qualidade de vida, além de provocar maior destruição da camada de ozono, causa das grandes e incontroláveis alterações climáticas que o planeta tem vindo a sofrer em ciclos mais curtos e de maior intensidade. A virtude de ter subscrito o Protocolo de Kyoto. Nas décadas de 1970 e 1980, a China era um exportador líquido de petróleo e na década de 1990 passou a importador líquido. No ano de 2006, cerca de 50% do petróleo consumido na China era importado. A Agência Internacional de Energia (IEA) estima que nos próximos vinte anos as importações chinesas de crude serão iguais às dos Estados Unidos no corrente ano. O crescimento da dependência em hidrocarbonetos leva a China a ter interesse por países como a Rússia, Cazaquistão, Sudão, Nigéria, Angola, Arábia Saudita, Venezuela, Colômbia e Brasil cujo apetite avolumou-se com a descoberta de novas jazidas de petróleo.
Todavia, mais de metade dos hidrocarbonetos que importa tem origem no Golfo Pérsico, o que vem colocar uma terceira questão de ordem geoestratégica constituindo uma enorme dor de cabeça para o governo americano e sua política de defesa ou segurança nacional. A China parte da premissa correcta de que os Estados Unidos continuarão a manter uma política de controlo do petróleo produzido no Golfo e países limítrofes. A razão do envolvimento até aos cabelos dos Estados Unidos na área, com incalculáveis custos materiais e vidas humanas nas últimas décadas não tem como desiderato a instauração da democracia ou defender os direitos humanos, mas sim para protecção dos seus interesses materiais como o crude e geoestratégicos.
Têm conseguido precariamente à custa da instabilidade política, social e económica na região e no seio da própria nação americana. O petróleo do golfo em termos de produção mundial tem vindo a diminuir, o que a bem do equilíbrio geoestratégico é aconselhável que a China invista em outras áreas do globo, sem menosprezar que a política americana no golfo será sempre uma ameaça aos interesses da China, e o estabelecimento de ligações estratégicas com países que os Estados Unidos classifica como contrários aos seus interesses pode criar atritos e sobreaquecimentos em toda a área do Pacífico.
O governo americano, quer seja o da administração George Bush ou de John McCain, verão com efervescência a venda de armas, ajuda em termos de emprego militar e civil e de fornecimento de tecnologia nuclear pelo Irão, país aliado da China que é o seu maior vendedor de crude e que recentemente ambos assinaram contratos de fornecimento bilionários. Enquanto a China estreita ligações com o Irão, os Estados Unidos tentam convencer sem êxito a União Europeia a impor sanções mais pesadas contra o programa nuclear iraniano, cujos fins são recheados de fantasia, como o foram o do inexistente armamento químico e nuclear do enforcado ditador Saddam Hussein, maquiavelicamente trabalhado como álibi para a invasão do Iraque.
O Pentágono mantém-se em constante monitorização aos mísseis de cruzeiro vendidos pela China ao Irão com o fim de atemorizar o tráfego petrolífero ou os navios de guerra que circulam no golfo e cuja ameaça se atenuará com a inevitável e derrocada retirada militar americana do Iraque. Para uma profunda análise do consumo do crude sugerimos a leitura do livro “A Thousand Barrels a Second: The Coming Oil Break Point and the Challenges Facing an Energy Dependent World” de Peter Tertzakian.
















