Alan Greenspan
The Age of Turbulence
A possibilidade de uma recessão na economia americana, ainda que de curta duração, no seguimento da esteira de Alan Greenspan e da sua visão em “The Age of Turbulence”, ainda que, minorado pelo optimismo de alguns indicadores da economia americana revelados no dia 5, que mostram uma expansão súbita e não prevista do sector dos serviços que tiveram o seu primeiro crescimento este ano, tornando possível a interpretação de que os danos causados pela crise habitacional e de “subprime” estão a desaparecer. Aos países asiáticos importa saber se em caso de recessão da economia americana, qual será a repercussão nas suas economias. O cerne desta questão tem de ser analisado tendo em consideração a diversidade das economias. Existe, por exemplo, uma grande divergência entre a economia da China e da Índia. A China prepara uma desaceleração no crescimento anual do PIB que tem sido de cerca de 10% nos últimos 30 anos e acima dos 11% nos últimos cinco anos, tendo terminado o ano passado com um crescimento de 11,4%.
O governo chinês criou regras para que o crescimento este ano fosse inferior a 10%. Teme-se que tal objectivo não venha a ser atingido e o Boletim da Primavera da Comissão Europeia prevê um crescimento da China de 10% e uma desaceleração no próximo ano para 9,1%. O relatório aponta ainda, uma desaceleração da economia americana que crescerá este ano 0.9% e no próximo ano 0,7%. A Índia tem vindo a ter um crescimento da sua economia nos últimos dez anos de 8%, devendo este ano ser idêntico crescimento. A China detém a maior reserva estrangeira de moeda americana, sendo o maior receptor de Investimento Directo Estrangeiro (FDI) em dólares e igualmente o maior utilizador da divisa americana. Inevitavelmente, o que aconteça nos Estados Unidos tem repercussões na China e vimos que a previsão da desaceleração da economia americana cria o mesmo efeito na economia chinesa. Mas essa repercussão só afectará parcialmente, porque não devemos esquecer que a China é constituída por dois mundos paralelos, o político e o económico. Por estranho que ao Ocidente possa parecer é um país detentor de uma boa gestão e com uma máquina de controlo estrito quanto às actividades desenvolvidas, pelo que é errado pensar que todos os chineses podem fazer negócios e da forma que lhes aprouver.
O governo controla toda a economia, desempenhando a Administração de Indústria e Comércio o crucial papel nessa actividade. Todos os países possuem organizações industriais. A China rege-se pelo princípio da transparência quanto aos objectivos a atingir e às directivas que nesse contexto transmite às empresas. Sabemos o quão positivo tem sido o resultado. A China não passou pelas turbulências da ex-união soviética, em que a sua economia ruiu quando passou de uma economia central e planificada para uma economia de mercado livre. É preciso não esquecer que a China actual está comodamente instalada em cima de uma montanha de dinheiro e procura por todo o mundo locais vantajosos onde possa investir, que vão desde poços de petróleo, infra-estruturas, agricultura e minas. Se não pode continuar a vender aos Estados Unidos como o tem feito, qual será a razão para conservar enormes reservas em dólares? É de presumir uma reavaliação dessa política, no sentido de harmonizar melhor o seu comércio externo. Procuram outros mercados em distintas áreas geográficas para investir.
A África e América Latina têm sido fortes destinatários. Mas sabem que existe uma outra Ásia, a do Sudeste e nela têm investido desde o Vietname ao Camboja, financiando projectos hidroeléctricos num país que nos dois últimos anos tem crescido cerca de 10% e que pretende ser o gerador hidroeléctrico do Sudeste Asiático. A Índia é uma mistura interessante de exportação de serviços, tecnologia e matérias-primas. As grandes marcas mundiais de alta tecnologia usam as capacidades e aptidões indianas. Em caso de grave recessão nos Estados Unidos a Índia pode ser um dos países mais atingidos, dado ser um mercado de maior abertura e menor intervencionismo estatal. A possível fase que os Estados Unidos atravessam, que podem vir a conduzir a uma mais profunda desaceleração ou recessão, não é nem comparável ou a pior desde a grande crise de 1929 como se tem anunciado.
A Ásia contrariamente aos prognósticos venceu a crise de 1997 e mesmo que haja uma recessão na economia americana com consequências inevitáveis no comércio global aprenderam com os erros que a provocaram, retirando os devidos ensinamentos. Temos de considerar que a China é um país completamente distinto de há dez anos. A China apreendeu os mecanismos do sistema financeiro mundial e tem uma intervenção diferente, intervindo a nível global. O tema central durante muitos anos, foi como ir à China e fazer negócios. A situação inverteu-se, e actualmente é a China que faz negócios a nível global. Empresas chinesas estão consideradas entre as maiores do mundo. A China deixou de apresentar apenas a face de fabricante de produtos baratos. Empresas chinesas competem com empresas americanas e outras, em igualdades de circunstâncias. A China e os chineses cresceram e amadureceram.
Por tal razão, talvez, não seja demasiado fácil fazer negócios na China. Situação que pode levar à alteração do paradigma da economia global, ou seja, de que pode existir a possibilidade a prazo de o poder se deslocar dos Estados Unidos para a China e demais países asiáticos, do Ocidente para Oriente, como sempre ocorreu ao longo da história. O dólar americano poderá deixar de ser a moeda de referência das trocas comerciais.
A economia mundial encontra-se mais bem equilibrada. Apesar dos Estados Unidos não se encontrarem sós, mas acompanhados pela União Europeia, China e países asiáticos, não irão deixar de ser a primeira economia mundial. Perante as possibilidades suscitadas, os Estados Unidos sempre venceram as suas crises e a recuperação do dólar será inevitável. Os Estados Unidos e a União Europeia são super potências, e é impensável serem substituídas por outros protagonistas como os Bancos Centrais dos países asiáticos, pelos países exportadores de petróleo e pelos fundos de investimento fora da Bolsa. Os sucessivos aumentos do crude poderão criar mossa nas economias como é referido no capítulo XIV, “The Long-Term Energy Squeez” em de “The Age of Turbulence”, mas não o seu desfalecimento.
















