Suu Kyi
No espaço de uma semana, para cima da centena de milhar de pessoas perderam a vida no continente asiático como consequência de duas das maiores catástrofes depois do “Tsunami” em 26 de Dezembro de 2004. Primeiro, por força do tufão “Nargis” a 3 de Maio, que causou cerca de 78000 mortos, 56000 desaparecidos e 2.5 milhões de pessoas ficaram sem lar em Myanmar (anterior Birmânia) um paupérrimo e isolado país do Sudeste Asiático, desgovernado ditatorialmente e em permanente violação pelos mais elementares direitos humanos desde 1971, pelo Conselho de Estado para a Paz e o Desenvolvimento, nome oficial da junta militar , presidido pelo general Than Shwe.
A grande preocupação da junta militar foi a realização do referendo para aprovação de uma nova constituição, que reforça os poderes dos militares e oferecia louvores a Buda para que o Sul do país devastado se recuperasse para votar. Não importava ao governo que milhões ficassem sem alojamento e necessitassem urgentemente de comida e água e os mortos a decomporem-se ao ar nos arrozais e rios do delta do Irrawaddy. O governo adiou até dia 24 a votação nos quarenta e sete municípios mais atingidos. Foi uma concessão feita às vitimas para se refazerem e sobreviverem por si, for forma a que os 2.5 milhões de desabrigados pudesse regressar ao local onde viviam e se encontram registados e votarem a favor. Aos milhares de desaparecidos ordenaram que fizessem o seu aparecimento e os mortos encarados como abstenções. Não obstante o adiamento, no dia 10 a junta militar afirmou que o referendo sobre a Constituição em Myanmar foi aprovada por 92,5% dos vinte e dois milhões de eleitores dos 22 milhões de eleitores, num país cuja população ronda os 53 milhões de habitantes. Trata-se de uma percentagem assustadora de votos favoráveis, revelando-se extraordinariamente aberrante para umas eleições realizadas em tais circunstâncias, apesar dos resultados finais só serem revelados após a votação nos restantes municípios e que deverá ser igual ou superior. Infelizmente no delta do rio Irrawady, enormes superfícies de terra foram riscadas do mapa pelo ciclone, pelo que a junta militar deve modificar a cartografia e nos resultados finais corrigir o recenseamento, tendo em conta a deslocação da população causada pela sua negligência criminosa.
O essencial é que, por meio do referendo, 92,5% dos votantes do dia 24 de Maio concorde em atribuir mais poder aos militares, como ocorreu no restante do país, onde a chamada às urnas se realizou pontualmente apesar do tufão. Não existem dúvidas que a junta militar vai conseguir a façanha de ganhar um referendo a realizar num região do país inexistente, com votantes mortos e desaparecidos. Não pode existir mais poder. Se com a actual constituição podem recusar a ajuda humanitária e impedir a distribuição de água potável na capital e de água e alimentos nas zonas atingidas, e todos os dias o número pessoas que morrem por desidratação aumenta, a junta militar tem todas as competências de que necessita. Maiores atribuições constitucionais não devem existir. Se com o regime actual os governantes não encontram obstáculos para conter as organizações humanitárias de viajar às regiões onde a população está a morrer de fome, não devem apresentar qualquer lamento em favor de maiores poderes.
No “Le Monde Diplomatique” é descrita o facto de uma adolescente se ter dirigido depois de cinco dias sem comer a um dos poucos lugares onde os militares distribuem alimentos e foi-lhe negada uma porção de arroz porque o seu nome não constava da lista de sobreviventes. Se um soldado pode comunicar a uma adolescente que não está viva e privá-la de alimentos para corrigir o absurdo de uma criminosa gestão administrativa, não se consegue divisar os incómodos e empecilhos que a junta militar se depara para alterar a constituição vigente. O que a junta militar tem demonstrado ao mundo é que a calamidade mais mortífera é o poder omniforme ou ilimitado. Esta calamidade deixou de ser o tufão “Nargis” e passou a denominar-se junta militar- “Than Shwe”. O delirante e criminoso general fez de Myanmar um poço sem fundo onde todos os dias caiem milhares de pessoas. Vive uma existência tranquila porque impede os mortos de serem molestados dos vírus e bactérias de enorme perigosidade transmitidos pela ajuda humanitária internacional. Um dia irá ser julgado por um tipo de crime desconhecido contra a humanidade. Nova catástrofe abate-se no dia 12 às 14:28 horas sobre a Ásia, com um sismo de 7,8 graus na escala Richter, sob a Província de Sichuan, no Sudoeste da China. O epicentro teve como cidade mais próxima, Wenchuan. O sismo foi causado pela deslocação de 10 km por ano da placa tectónica da Índia em direcção à placa euro-asiática e cuja pressão provoca uma elevação na Cordilheira dos Himalaias e sismos na falha geológica de “Longmenshan”, e a 19 km de profundidade e ao longo desta. A menos de 150 km do epicentro situa-se a cidade de Chengdu, principal centro industrial e porto do Norte da China. Não é a primeira vez que a zona ocidental da China é atingida por terramotos de grande intensidade, ainda que, na sua maioria têm como epicentro zonas pouco povoadas ou desabitadas. O sismo foi seguido de quatro réplicas de grau superior a cinco no espaço de menos de duas horas e de outras trezentas de magnitude inferior a quatro graus na escala de Richter. Estima-se que o número de mortos atinja os 50000, de feridos cerca de 65000, dos quais mais de 12000 se encontram em estado grave, e os afectados mais de dez milhões de pessoas. Macau e Hong Kong situam-se a pouco mais de 1300 km do epicentro, tendo o sismo feito sentir-se nas zonas mais altas dos edifícios, bem como em toda a Ásia Oriental, como em cidades da Tailândia e Vietname. Foi o quinto maior sismo ocorrido na China nos últimos oitenta e oito anos, mas felizmente com o menor número de mortos dos anteriores quatro. Estranha coincidência que o sismo de 16 de Dezembro de 1920 em Kansu onde pereceram 180000 pessoas, voltou a ser cenário de novo sismo no dia 25 de Dezembro de 1932 no qual faleceram 70000 pessoas. As maiores catástrofes naturais dos últimos anos fustigaram a Ásia. Pela semelhança com a negligência evidenciada pelo governo de Myanmar nos tempos recentes, existe a situação causada pelo furacão “Katrina” que matou mais de 1500 pessoas e que atingiu e destruiu 70% da cidade de Nova Orleães, perante a apatia do Presidente Bush, que tinha como prioridade convencer o congresso do aumento das despesas para a guerra do Iraque e que apenas passado seis dias se dá conta do trágico evento. Por vezes o totalitarismo militar tem semelhanças com a democracia militarista. Foram deslocados para a zona do sismo na China 130000 militares.
No meio desta terrível desgraça, a realização dos Jogos Olímpicos e as duras críticas pela comunidade internacional à atitude do regime totalitário birmanês na administração do cataclismo, estimularam o governo chinês a conceder uma maior liberdade à imprensa. É de enaltecer o facto de o Primeiro-Ministro Wen Jiabao ter chegado a uma das cidades mais castigadas pela catástrofe, apenas quatro horas após a sua ocorrência, o que pode ser interpretado como uma viragem política sem precedentes. Puderam-se ver imagens de solidariedade e emoção do Primeiro-Ministro todo ensopado, debaixo de uma incessante chuva, de megafone a incentivar as equipes de resgate, os sobreviventes e os familiares das vítimas, a quem ofereceu o seu apoio. Imagens que deram a volta ao mundo, causando um profundo respeito na comunidade internacional e entre o povo chinês.
No dia 17, aconteceu novo sismo de 6,1 graus na escala de Richter com o epicentro no Norte da Província de Sichuan e a 80 km de profundidade. Foram escassos sete segundos que alimentaram os desgastados nervos da população sobrevivente e das equipes de socorro. No dia 19, produziu-se o pânico entre a população da cidade de Chengdu quando às 22:00 horas o governo declarou o alerta, sobre a possibilidade do aparecimento de réplicas com intensidade 6 a 7 graus da escala de Richter.
Uma onda de ardor patriótico e ânsia de ajudar apoderou-se da população chinesa e basta ver os jornais locais, para encontrar mensagens de ânimo junto a uma infinidade de logótipos de empresas nacionais e estrangeiras. Duas diferenças separam os dois cataclismos. Myanmar está a sofrer as consequências da fúria da natureza e a fúria de um regime despótico e criminoso. A China está debaixo das mãos da natureza.
















