Óscar Wilde
Sendo que a verdade irrita os espíritos sensíveis, no seguimento do nosso anterior escrito, sobre este tema, sabemos que sempre depois da análise vêm as objecções. A primeira é de natureza conceitual. As civilizações actuam como organismos que nascem, crescem, desenvolvem-se e não esqueçamos, também morrem.
Funcionam como átomos, por vezes coexistem ou se sobrepõem, vivendo vidas paralelas. Nunca se misturam, porque o seu princípio vital é singular e irredutível. Há bibliografia abundante, mas esta impressão geral não conhece excepções relevantes. Convivência, quiçá.
Diálogo ou Acordo como incoerência, torna-se impossível. A segunda, e talvez a principal, resulta ser uma objecção de ordem moral.
Nem todas as civilizações são igualmente valiosas nem cabe manter face às mesmas um relativismo indolente. A nossa civilização é menos injusta do que as demais. Outras admitiram ou admitem o canibalismo, a escravatura ou a inferioridade da mulher.
Injustiça universal, quiçá, ainda que em graus diferentes. O Ocidente não se livra de defeitos. Mas os seus sinais de identidade (filosofia grega, direito romano, religião cristã, ciência moderna) oferecem vestígios de alta qualidade humana.
Sabemos que a democracia constitucional é melhor do que o despotismo e que os direitos da pessoa valem mais do que as arbitrariedades do poder.
Crise, supostamente. Febre helenística, que paralisa as ideias.
Cépticos, cínicos e epicureus, com alguns falsos neo-estóicos à mistura mal atingem o nível dos discípulos ou epígonos. Velha ordem mundial que resiste ao desaparecimento. A Organização das Nações Unidas (ONU), filha da paz imperfeita, instrumento da guerra fria, motor da descolonização, é incapaz actualmente de orientar a sua própria reforma.
É lógico o interesse da burocracia internacional para a sugestão de diálogos civilizacionais, facto que faria prolongar o seu discurso fragmentário e asséptico, coalhado de lugares comuns em forma de tolerância, colóquio ou solidariedade.
Vaticinaria mais comissões de peritos, congressos e exposições, livros colectivos e jornadas de reflexão. Teríamos o habitat natural da contemporânea classe ociosa de intelectuais, ex mandatários, dissidentes líderes de opinião.
Sempre os mesmos. Defeitos existem no Ocidente, como em todas as partes.
Mas pelo menos as pessoas comem, votam e vivem em paz, se assim o desejarem, quer com Deus, quer com os homens. Não é pouco, dada a condição humana, a sua permanente insatisfação e conferida a experiência, que é o guia menos enganoso de qualquer opinião.
Terceira objecção, um diálogo pressagia um acordo que é um consenso firme de vontades, mútua dependência e lealdade recíproca. Faz algum tempo lemos online nos meios de comunicação social ingleses, onde as manchetes realçavam as palavras do líder mediático da Al-Qaeda de que cairiam mais bombas sobre Londres, porque essa era a vontade de Deus, o que tinha acontecido até aí nada era comparado com o que viria.
Dizia que falava em nome do Islão. Não é verdade, mas também não se trata de uma minoria irrelevante, uma vez que uma parte significativa dos muçulmanos compartilha sentimentos análogos.
Não obstante, um liberal é incapaz de raciocinar mediante preconceitos e generalidades. São as pessoas não as ideias, nem as religiões, nem sequer as civilizações as que põem as bombas, odeiam as suas vítimas, semeiam o medo, ansiedade, pânico, terror e provocam danos.
Não pretendem ganhar. Sabem, porque são inteligentes, que nunca vão ganhar. Mas utilizam o fanatismo para dar rédea solta a essa crendice que não sabe conviver com a liberdade, nem sequer com esta liberdade concebida e trabalhosa que nos outorga uma sociedade subjugada pela estatística.
Um diálogo e um sequente acordo de civilizações é um alívio para o inimigo existencial, que é mais do que um simples adversário.
Essa ideia e os pais da sua concepção devem recordar a exigência que se propõe, sobre o vulcão, de que cada um deve estar à altura da sua própria metáfora. Que pode ter em comum um dirigente árabe com um persa? Um membro da seita xiita com o herdeiro histórico do califado de Damasco que massacrou Hussein e os seus descendentes para impor o sunismo? Um dirigente de uma república teocrática com o herdeiro de um regime laico e pan-árabe? Usam o mesmo alfabeto, mas nem sequer falam a mesma língua ou compartilham iguais fronteiras.
Qual será o denominador comum entre o novo presidente iraniano e o presidente sírio? Adivinham? O único que une neste momento o Presidente da Síria Bachir O Assad com o Presidente da República Islâmica do Irão, Mahmoud Ahmadinejad é que ambos estão dispostos a fazer o possível e o impossível para impedir que a liberdade e a democracia penetrem nos seus respectivos sistemas políticos.
Um está decidido inclusive a dotar-se de armamento nuclear, e contra quem estaria disposto a utilizá-lo? Contanto que se proteja dos ventos do liberalismo... O outro, beneficiário de uma ditadura hereditária, não sabe o que significam eleições livres.
De facto, não sabe o que são eleições de classe alguma. O iraniano sim, mas não pode imaginar uma disputa eleitoral na qual os indivíduos sejam livres de expressar as suas preferências políticas sem se verem limitados pelos critérios medievais dos seus clérigos.
Um diálogo de civilizações iria em sentido contrário ao da influência da civilização democrática. É oportuno empregar a romântica metáfora da “Noite do Mundo”, tão querida a Martin Heidegger, ao referir-se à misteriosa condição do nosso tempo, caracterizado para além das carências de Deus, por algo bem mais dramático que é a incapacidade de sofrer essas carências.
As novas filosofias da esperança situam no centro da reflexão a questão do “alter”, e convertem o problema da revelação na questão filosófica e teológica prioritária do nosso tempo, na pergunta filosófica por excelência.
Essa atitude de esperança como tempo em que as perguntas têm prioridade sobre as respostas, esquadrinha a possibilidade do indício do sentido.
A atitude filosófica consiste na procura de um sentido perdido para a civilização ocidental.
A sua interrogação combina a filosofia e a teologia, convidando a escutar a voz dos poetas e a esperar a revelação do ressentido, que só pode proceder do Outro, ou seja de Deus, o Cristo judeu enquanto homem e incontestavelmente parte da civilização ocidental e que defendemos tal como o Professor Joseph Weiler, nosso amigo e mestre a inclusão da sua referência no Tratado Constitucional Europeu, comummente denominada de Constituição Europeia.
Neste “Choque de Religiões” é muito fácil sentarmo-nos com o regime teocrático para falar do tempo civilizacional onde o religioso se insere, mas quando se trata de enfrentar o grave problema que as fricções do mesmo causam e do qual depende a segurança do mundo, os países civilizados do ocidente devem mostrar as suas qualidades.
















