“Actions are held to be good or bad, not on their own merits, but according to who does them. There is almost no kind of outrage, torture, imprisonment without trial, assassination, and bombing of civilians, which does not change its moral color when it is committed by our side. The nationalist not only does not disapprove of atrocities committed by his own side, he has remarkable capacity for not even hearing about them.”
George Orwell
A escravidão laboral na China (II)
A empresa Chun Si Enterprise Handbag Factory, situada na cidade de Zhongshan, na próspera província de Guangdong onde nasceram e se multiplicam milhares de fábricas que produzem todo o tipo de bens para as empresas ocidentais e cujo dono é um conhecido industrial de Macau. Esta empresa tem contratos com as multinacionais Wal-Mart Stores Inc. (WMT), e Payless ShoeSource Inc. (PSS), que confeccionam malas para senhora, há mais de 10 anos. As cerca de mil trabalhadoras permaneciam encerradas dentro do perímetro da fábrica todo o dia, com excepção de um hora que lhes era dado para descanso e toma de refeições. Os guardas agrediam-nas constantemente e aplicavam multas inéditas como o aproveitamento por “excesso das obrigações laborais”. Pouco mais de meia dezena de fábricas chinesas subcontratadas por empresas ocidentais mantinham as condições mínimas em termos laborais. As restantes que constituem o monstruoso conglomerado de cogumelos eram sujas, mantinham as empregadas a laborar com durações de trabalho ilegais, que fariam desmaiar qualquer inspector da Organização Mundial de Trabalho (OIT) ou sindicalista de palavreado comunizante e identificação social-democrata no velho continente e novo continente. Pagavam salários miseráveis ou tinham sido dissimuladamente encarceradas em locais das fábricas, em que as miniaturas de janelas estavam travadas com barrotes e as portas cerradas à chave durante as vinte e quatro horas do dia. Numa tentativa de compensar as crises que tinham de enfrentar as relações públicas das grandes multinacionais ocidentais com os meios de comunicação sociais, começaram a contratar há cerca de oito anos grupos de pessoas independentes em relação às multinacionais e fábricas, para realizarem trabalhos de inspecção. As inspecções não apresentaram qualquer resultado assinalável, porque as empresas não colaboraram e não tinham qualquer intenção de mudar o sistema, como afirmavou na conclusão de um relatório produzido no ano 2000 a Comissão de Trabalho Nacional (NLC) dos Estados Unidos, que é uma associação que centraliza todas as denúncias contra empresas americanas. Os inspectores de Wall-Mart, por exemplo, nunca descobriram qualquer irregularidade no seu centro de produção na China e apenas um texto publicado em 1999 numa revista e jornal americanos revelaram ao mundo, o que na realidade estava a acontecer no mundo laboral chinês, denunciando os abusos praticados. No portão de entrada da fábrica da marca desportiva “Nike” situada na cidade Jiaozhou, na província de Shandong, existe um dístico de propaganda, onde se encontram desenhados em caracteres os dizeres “Simplesmente Faz”. No interior cerca de mil e quinhentos jovens de idade inferior a vinte e cinco anos, trabalham doze horas por dia como denunciou o NLC. Trata-se de uma pequena fatia de mais de cem mil chineses que fabricam artigos desportivos da marca “Nike” por toda a China, acrescidos de cerca de setenta mil na Indonésia e quarenta e cinco mil no Vietname. Números esses que têm vindo a crescrer anualmente. A fábrica na China com o portão de entrada em ferro e os barrotes nas janelas assemelha-se mais a quartel. O NLC é o primeiro a denunciar a inexistência de códigos conduta pelas multinacionais. Mas existem ainda piores situações. São as fábricas de produtos de tudo primeiro a 100, depois a 200 e actualmente a 300, geridas e exploradas umas por empresários chineses, outras por empresários estrangeiros em todo o mundo. A pressão pelo baixo custo (preço) é maior e por baixo capa negra que celebrizou o anúncio do Porto Sandeman em Portugal e explorado por ingleses, não existe o galante vinho que é deglutido todos os dias por Sua Majestade a Rainha Elizabeth II de Inglaterra, mas desconhecidas empresas que não têm um nome e uma marca a proteger como o Porto Sandeman. O mote é produzir em grandes quantidades, o mais barato possível e de forma rápida, numa nova equação económica traduzida por (PBR)=produção+barato+rapidez. Os acidentes de trabalho, como por exemplo o que destruiu uma fábrica de Shenzhen em Novembro de 1993, matando oitenta e sete trabalhadores e produzindo cinquenta e sete feridos. Ao longo destes anos essas situações têm vindo periodicamente a suceder e consideradas pelas autoridades chinesas como ocorrências quotidianas. Acasos a mais contradizem o excesso de coincidências por falta de legislação e vigilância, ou quando existe é facilmente desviada propositadamente a atenção para locais menos importantes. Mais um exemplo, referente ao ano em que se tornam públicas as ilicitudes cometidas pelas multinacionais ocidentais e empresas chinesas. No dia 26 de Dezembro de 2000, passados seis dias da transferência de poderes do então Território de Macau, da República Portuguesa para a República Popular da China, que passou a constituir depois de Hong Kong, a segunda Região Administrativa Especial da China (RAEM) nos termos das disposições do artigo 31.º da Constituição da República Popular da China e de harmonia com o princípio “um país, dois sistemas”, um incêndio causou trezentas e nove vítimas num centro comercial no centro da China, sendo dos piores registados no país nos últimos dez anos. Segundo estatísticas oficiais chinesas, apenas nos nove primeiros meses do ano 2000, morreram cerca de mil pessoas no inimaginável número de trinta e seis mil incêndios. O pior incêndio sucedido na China foi em 18 de Fevereiro de 1977, num cinema da cidade Xinjiang, capital da Região Autónoma de Xinjiang, a maior da China, onde morreram quase setecentas pessoas. Os incêndios têm indo a multiplicar-se exponencialmente, e a 14 de Agosto de 2007, podia ter ocorrido uma enorme tragédia, quando os bombeiros conseguiram debelar o incêndio no maior prédio da China, ou seja, no Xangai World Financial Centre, que tem 101 andares em fase final de construção e aparentemente causado por uma faúlha de soldagem perto de materiais de construção. O World Financial Centre, construído pela empresa de construção japonesa “Mori”, é um da muitas dezenas de arranha-céus em construção na capital económica da China, que tem vindo a registar um crescimento desmedido. Tem cerca de quinhentos metros de altura e incluirá a plataforma de observação mais alta do mundo, um hotel cinco estrelas e espaço para lojas e escritórios. Este incêndio milagrosamente foi dos poucos que não causou vítimas. A política de contratação nestas fábricas do tudo, a 100-300, é de não admitir mulheres de idade superior a vinte e cinco anos, mas em certas situações os empresários transgridem as regras por si criadas admitindo os filhos menores das candidatas a trabalhadoras se estiverem dispostos a juntar-se à corrente de produção sem receber nada pela situação. As mães recebem, mas o sistema leonino de sanções tende a reduzir a sua retribuição para cerca de 325 yuans ao ser retirado o pagamento de uma hora por cada minuto de atraso ao trabalho, penalizando-se com cinco horas as ausências ao trabalho ou deixando de pagar por completo o salário mensal às que tenham um comportamento incorrecto segundo os seus padrões.(1)
(1) A elaboração destes textos tem sido confirmada por extensa pesquisa e por dezanove anos de vivência permanente em contacto com a realidade chinesa. Não vamos expor por não se tratar de texto académico da bibliografia consultada. Apenas deixamos para quem se interesse por esta matéria a ponta do novelo, o texto do “Global Report” de Asheville-Norh Carolina-Estados Unidos de 1 de Outubro de 2000 e cuja fonte da mesma data foi publicada na Revista Businessweek. Empregamos propositadamente os tempos verbais no pretérito.
Jorge Rodrigues Simão
P.S. (tradução da versão inglesa a ser publicada no S.T de Londres a 08-03-2008)
in “Time”, Slave Labor in China Sparks Outrage, Jun. 20, 2007
Slave Labor in China Sparks Outrage
The furor in China surrounding the discovery that children and the mentally handicapped had been kidnapped and sold into slavery is showing no sign of abating. It seems increasingly likely that the controversy will mark a significant milestone in the evolution of the country's civil society. Police said they had rescued more than 500 people from forced labor in brick kilns, where they were worked 18 hours a day and beaten if they tried to escape. Some 30 arrests have been made and more are expected following a massive police rescue operation involving 35,000 officers checking 7,500 work places.
The crackdown began after some 400 parents of children who they suspected had been kidnapped published an anguished letter on the popular Internet forum Tianya Club on June 7. The letter said they had managed to rescue some 40 children before running into stiff resistance from the local authorities in the northeastern province of Shanxi, where most of the kilns were situated. The letter sparked a storm on the Internet, and by June 13 a member of the Standing Committee of the Politburo of the Chinese Communist Party expressed concern about the issue. The police action soon followed.
Populist criticism on the Internet has been at the forefront of the outrage — and may be a harbinger for how grassroots protests are heard by Chinese authorities in the future. As is often the case, coverage of the incident has been gently moved off the front pages of Chinese newspapers. Nevertheless, the subject is still a hot topic on Chinese websites, where much of criticism was directed at the authorities for failing to intervene to stop the human trafficking and enslavement of the brick kiln workers. Even in usually docile official publication like the English language China Daily, the sense of shock and outrage many Chinese felt on seeing footage and pictures of the dazed, sometimes bleeding workers being led out of the kilns was evident, even if relegated to op-ed pages.
“None of the synonyms for 'anger' is strong enough to express the public's fury,” wrote columnist Liu Shinan. “I want to ask: What were local government officials doing when the children and other workers were tormented?” Liu also noted that “nobody would believe that such atrocities... are happening in today's China — 58 years after the Communist Party-led revolution put an end to the old society.” Another columnist in the same paper praised the role of a provincial newspaper reporter in exposing the slave trade and argued that China needed more investigative journalism.
Such criticism of the authorities and calls for a greater watchdog role by the tightly controlled media reflects the extent of shock many Chinese feel at the gruesome revelations. But it also shows the way the party is being forced to offer some accountability to a citizenry that is increasingly affluent and unwilling to accept that they have no ability to counter the arbitrary power of the state. The party leadership recognizes that it must adapt to the changing attitudes or risk losing control. “There is room to maneuver and the party is willing to negotiate so long as there is no challenge to its authority,” says Nicholas Bequelin, a China researcher for Human Rights Watch.
For both sides, figuring out the limits of the evolving relationship between China's rulers and its people is clearly a work in process. The slavery controversy culminates a month that has seen a string of incidents demonstrating the different ways the authorities choose to handle controversial issues. For several days in early June, for example, thousands of mostly middle-class protesters filled the center of the coastal city of Xiamen. They were calling for the government to cancel plans to build a chemical factory in a city suburb. Though the authorities didn't attempt to stop the highly unusual protests, they later called for participants to report to police stations and officers tracked down a number of demonstrators who had been photographed at the scene. Yet the government subsequently announced that it would suspend the project and the State Environmental Protection Administration in Beijing said the Xiamen government should reconsider.

















