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Entrada Economia Internacional Crise do Petróleo

Crise do Petróleo

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A crise do petróleo que hoje vivemos tem certas afinidades com as anteriores. Para melhor compreensão vamos analisar a mais próxima que se produziu em 2000 e depois passaremos à actual. Assim, em 2000 a elevada cotação do barril de crude trouxe à economia mundial um novo episódio de crise energética que se bem que não seria da dimensão das anteriores, poderia prejudicar a favorável conjuntura desse ano. Desde as anteriores crises, que o Ocidente deveria ter estudado o uso das reservas energéticas. Tudo começou quando os preços à data chegam aos 35 dólares por barril, que foi o preço mais alto dos últimos dez anos e com uma moeda que se depreciou mais de 25% frente ao dólar desde os começos desse ano, multiplicando o efeito altista, as economias da Zona Euro apareciam mais vulneráveis ao impacto negativo dos altos preços do petróleo, ou mais exactamente dos produtos energéticos, que o restante das economias desenvolvidas, sobretudo se os níveis se mantivessem, como aconteceu na primavera desse ano.
Apesar do aumento da produção de 800000 barris diários acordados na altura, pela OPEP em Viena, acreditavam que as perspectivas de uma baixa significativa a curto prazo, não só do crude, mas também dos produtos refinados não seriam favoráveis. Primeiro, por factores da estação do ano ligados à maior procura no inverno e ao baixo nível de existências dos Estados Unidos (que representam cerca de 30% do consumo mundial), que foi o mais reduzido dos últimos 24 anos. Em segundo lugar, pela escassez de refinação, cujos limites se duplicaram nesse tempo, acrescentando-se o elevado nivel do frete dos petroleiros. Em terceiro lugar, pela especulação dos mercados financeiros que jogando com as expectativas, aumentaram as oscilações de preços tanto para a alta como para a baixa. Por estas razões, apesar do aumento acordado na altura, a escassez das reservas e a capacidade de refinação, os fretes dos petroleiros e a especulação financeira não permitiram que os preços tivessem melhorado para niveis aceitáveis. A única resposta possível para as carências de então de produtos seria o uso conjunto das reservas estratégicas da Europa e dos Estados Unidos, cujo o seu papel em semelhante situação é a de resolver as crises conjunturais.
Pelo contrário, as perspectivas a médio e longo prazo pareciam mais favoráveis. De facto na altura os mercados financeiros não consideravam sustentável um nivel de preços do crude acima de 30 dólares o barril e valorizaram as principais companhias petrolíferas mundiais como se o preço do crude estivesse a 18 dólares por barril. Assim, o preço médio na bolsa dessas companhias situava-se à volta de uns 12% subvalorizado. O motivo destas perspectivas favoráveis a médio e longo prazo residiam num facto conhecido e reiteradamente sancionado pela realidade, que é dos preços elevados reduzirem a procura, promovendo melhores tecnologias e aumentando a eficiência do consumo, incentivando a exploração e a produção de novas áreas. Assim, ainda que naquele momento a capacidade excedentária da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP), fosse baixa, correspondendo a 1.8 milhões de barris diários depois da última subida, do qual mais de 90% encontra-se concentrada na Arábia Saudita e Emiratos Arábes Unidos, existem grandes reservas já conhecidas em vários países do Médio Oriente, particularmente na Arábia Saudita que podiam ser postas em exploração em dois ou três anos a partir de 2000, ano a que nos referimos no momento, e existem boas perspectivas de descobertas de grandes jazigos nas águas profundas do Novo México, do Brasil (onde os chineses começaram trabalhos no Piaui) e da África Ocidental. Mas, ainda que o nível de preços tivesse uma descida a médio e a lonfo prazo, a situação prolongada na altura até à Primavera podia ter produzido um sério dano a algumas economias, como veio a acontecer. Não nos esqueçamos, porque as memórias são férteis nesse ponto que todas as crises precedentes (1973-74, 1979-80, e 1990) foram seguidas de fortes recessões económicas e quedas das bolsas.
O que as crises precedentes tinham em comum com a de 2000 é que em todas elas os preços do petróleo triplicaram, mas também existiram diferenças importantes . A primeira é que felizmente devido a melhores tecnologias, as economias mais desenvolvidas consumiram metade da energia por unidade de Produto Interno Bruto (PIB) que nos anos setenta, ainda que não fosse, como é lógico o caso de todos os países. A segunda particularidade é que, em termos reais, os preços em 2000 eram metade dos preços nos princípios dos anos oitenta e 35% dos de 1990, depois da invasão do Kuwait.
Tudo o que acima dissemos leva-nos a concluir que naquela data a hipótese mais razoável ainda que pudesse talvez existir cenários mais pessimista, foi de um efeito em 2000 muito menos importante que nas precedentes crises, o que não quer dizer que na crise de 2000 ou na que vivemos que tem alguns pontos comuns, não tenha tido ou não vá ter um impacto negativo apreciável sobre os países importadores, sobretudo se o período de alta de preços se prolongar mais que o previsto como é o da crise que hoje vivemos, particularmente nas economias dos países desenvolvidos e em particular na europeia totalmente dependente. Mas verdadeiramente relevante é o impacto final dos maiores preços do petróleo sobre as economias, e que depende essencialmente sobre as medidas de política económica que sejam adoptadas como resposta, e aqui é onde os governos cometem os maiores erros. Basta estudar as medidas de política económica tomadas pela maior parte dos países na mais importante crise, a dos anos 1973 e 1974.
Os governos nessa época trataram de reduzir ao máximo o impacto sobre os consumidores e incorreu em falhas essenciais. A primeira foi a de transferir para o público a realidade das subidas de preços para reduzir a procura, e em segundo não terem tomado medidas económicas que a situação requeria, não tendo endurecido as políticas monetárias e fiscais e não realizando as reformas estruturais que tanto na altura como no momento em muitos casos continuam pendentes, imprescindíveis ambas, para limitar dentro do possível a espiral altista preços-salários como temos vindo a afirmar. Basta ver ao contrário de qualquer lógica o anúnciodo Primeiro-ministro Santana Lopes em reduzir a carga fiscal e outras peregrinas ideias se seguirão não só em Portugal como no mundo e muito propícias em altura de campanhas eleitorais.
As medidas erróneas tomadas na crise de 1973-1974 produziram em média uma recessão que levaria cerca de 20 anos a recuperar e que podia ter sido minorada. Por exemplo na maior parte dos países europeus a convergência real alcançada em 1975 para alguns países como Portugal só voltaria a dar-se em 1998.
Tanto em 2000 como no presente os responsáveis pela política económica estão a cometer erros semelhantes. Em 2000 a alta dos preços não foi transferida ao público, pelo que a inflação oficial não correspondia à real, a procura não abrandou, o aumento do consumo de gasóleo era o maior da Europa, com uns 7% no final do ano e os oligopolistas destruiram com essa política de preços a escassa concorrência existente, arruinando os operadores independentes e estações de serviço livres.
Em relação às mudanças estruturais, a política monetária em alguns países e no caso particular de Portugal já não depende de si, mas as reformas estruturais continuam pendentes, sendo que o governo em 2000 aceitou o favor do oligopólio, uma venda em que perdeu nos combustíveis, carecendo de força moral para tornar efectivas as medidas liberalizadoras e reduzir a posição dominante e os enormes benefícios obtidos em outras áreas por essas sociedades. O gaz natural butano onde os benefícios triplicaram os obtidos por sociedades europeias semelhantes. O governo equivocou-se nas suas decisões para fazer frente à crise como hoje está a repetir, e ainda que os efeitos em 2000, não tenham sido tão dramaticos com os de 1973 e 1974, nem de longe comparados, os actuais serão mais dramáticos que os de 2000, ainda que a crise tenha diferentes contornos, está a ser de longa duração e fatalmente terá de ter efeitos sobre a inflação, porque o pior está por chegar, como sobre o crescimento que não poderá manter-se aos niveis previstos.
Mas indo mais longe na analise da actual crise que hoje vivemos, que muitos dizem passageira, não conjuntural, fruto de una análise turístico-económica vemos, porque essa é a realidade, que o preço do petróleo move-se mais por expectativas psicológicas que podem fazer disparar o seu preço, do que por causas objectivas, ainda que estas existam. O preço do petróleo sobe. As bolsas caem. O nervosismo nos mercados e a ameaça das consequências que pode ter esta situação no bolso dos cidadãos, fazem temer o pior. Qual tem sido a causa desta crise? Muitos dizem começando pelo “The Economist” há alguns meses, que se deve à guerra do Iraque. Mas esta é apenas a ponta do iceberg. O governo do Iraque suspendeu num primeiro momento a produção perante a ameaça das mílicias. O petróleo sobe, as bolsas caem como dissemos, mas tal não se ajusta à realidade porque o Iraque não exporta no momento mais do que exportava durante o embargo. Sendo assim, que existe por detrás desta subida? Porque as pessoas querem saber sem grandes devaneios o que passa, porque se a situação afecta os países, começa por afectar as famílias. Com temos vindo a afirmar uma das causas é o aumento de consumo por parte da China, que se está a transformar na fábrica do mundo, perdoe-se a expressão, mas é a realidade, que tem recursos, mas escassos, o que a obriga a importar, o que provoca uma forte procura no mercado mundial. Outra razão é a incerteza do petróleo russo. Yukos, a empresa fornecedora de crude, mais importante da Rússia, encontra-se numa situação, que não é de ruptura económica mas sim política, pelo facto de o seu director se ter confrontado directamente com o Presidente Putin, pelo que o governo russo pretende ficar com a empresa ou destruí-la. Devemos acrescentar que se estão a reduzir as extrações depetróleo no Mar do Norte, uma importante alternativa ao fornecimento para muitos países europeus como a Grã-Bretanha, Dinamarca, Alemanha, etc. Outro elemento importante é o escasso investimento realizado pelos países produtores de petróleo como a Venezuela ou a Arábia Saudita nas suas infraestruturas, o que provoca com frequência avarias e dificuldades na extração, e que elevam os custos. A toda essa situação, acrecentaremos a questão do Iraque, que é um factor muito influente. Temos de afirmar, que não obstante, o preço do petróleo quase nunca se move em previsões de futuro. Influi mais pensar o que possa acontecer, do que está a acontecer na realidade. Até ao ponto em que as expectativas psicológicas são más, em alguns casos poderia disparar-se o preço, sem objectivamente assim ter de acontecer. Chegados a este ponto podemos perguntar se o medo pode ser influência. As bolsas infelizmente funcionam muito mais em razão das expectativas psicológicas, e não tanto tendo por base razões empresariais. Temos um exemplo de referência, que é o da Microsoft que antes do atentado de 11 de Setembro de 2001, estava cotizada na Bolsa dezasseis vezes acima do que valia na realidade, porque as pessoas não investiram em função do que valia a empresa mas antes na expectativa psicológica de que Bill Gates fosse criar um novo sistema “Windows” que monopolizaria o mercado. Factos como este fazem subir ou baixar as cotizações muito mais que a realidade económica.
Existe como referimos a influência do despertar económico da China, mas existe também o consumo vertiginoso dos Estados Unidos que ainda que produza 12% do petróleo mundial consome 30% como referimos, o que o obriga a importar milhões de barris. Todavia, devemos dizer que este consumo vertiginoso tem consequências graves para o resto do mundo e para o ambiente. No caso dos Estados unidos é escandaloso, porque esse consumo impressionante é feito só por 4,6% da população mundial que ali vive, o que nos indica que consomem muito acima do que deviam e com a particularidade de emitir 36% do CO2 mundial. Toda a economia americana gira à volta do petróleo que consegue a preços muito baixos, por isso a gasolina é muito barata, ainda que sabendo como está a situação deveriam reduzir os gastos. Mas conduzir-nos-ia a um tema de natureza cultural e ao estilo de vida americano, o modelo de consumo que é totalmente errado, e que sem embargo empenham-se em transferir através dos seus impactos culturais ao resto do mundo.
A Venezuela é uma das maiores reservas de petróleo do mundo. O facto de querer fazer cair e desaparecer Hugo Chavez do poder seria um bom negócio para os Estados Unidos, que poderia ter o petróleo ao lado de casa, mas recordemos que em Abril de 2002, Hugo Chavez sofreu um “Golpe de Estado” efémero que passados dois dias se inverteu quando o exército lhe deu o seu apoio. Mas há que ter em conta um dado interessante. O Presidente interino da Venezuela, Pedro Carmona, Presidente dos Empresários da Entidade Patronal venezuelana, quinze dias antes daquele momento, tinha-se reunido em Caracas com Bush pai para "negociar" o famoso “Golpe de Estado”. O que demonstra que o interesse dos Estados Unidos pela Venezuela é uma questão antiga. Nesses dias enquanto o país se preparava para o referendo, a CIA enviava a uma mensagem a Chavez: se perde, sai; mas se ganha, eles deixariam-no em paz. Encontramo-nos perante o tradicional intervencionismo americano à volta do mundo, que quando nos meus tempos de começo de faculdade chamávamos de imperialismo.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 21.10.2004
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