“O índice dos preços das matérias-primas de uso industrial vai subir 12% em 2006.”
Economist Intelligence Unit
Tendo nos últimos dois meses aumentado de forma acentuada o preço do petróleo, com o registo no corrente mês na Bolsa Mercantil de Nova Iorque em termos de cotação do barril de Brent revelado uma subida de 1,3%, ou seja, de 71,46 dólares, atingindo um limiar histórico. Em apenas pouco mais de quinze dias este tipo de crude subiu 6,7%. Mas vamos brevemente rever os acontecimentos em termos de evolução de preços, causas e consequências, produzidas desde a metade do mês. Com o petróleo a atingir máximos históricos, rondando os 70 dólares por barril de Brent, no passado dia 12, a esperada melhoria da inflação desapareceu, tendo em Março subido em Portugal para os 3,1% segundo a divulgação do Eurostat. A taxa de inflação média dos últimos 12 meses fixou-se no mês transacto em 2,3%. A “Zona Euro” superou nos últimos catorze meses o limite de 2% do Banco Central Europeu (BCE).
O BCE prevê que a inflação da “Zona Euro” ultrapasse os 2% até final do ano, devido ao elevado preço do petróleo e ao fortalecimento das economias, o que poderá fazer o BCE rever as taxas de juros no sentido da sua subida e que se situam actualmente em 2,5% anuais. A nossa taxa de inflação muito afastada da média dos países da UE, com uma inflação de 2,2%, descendo em relação aos 2,3% de Fevereiro e verdadeiros concorrentes de Portugal. Esta taxa de inflação compromete de forma séria o futuro da nossa economia, sobrecarregada também com uma preocupante queda da competitividade. O indicador da futura marcha dos preços, que é a inflação subjacente, apareceu em Março, limitando as felizes perspectivas que o Governo vendia, mas continuando por não tomar todas as medidas necessárias para prevenir de forma urgente esta escalada de preços, que de acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE) variaram no mês a que nos referimos 0,5%, que por sua vez, provocará o agravamento dos outros dois importantes problemas da nossa economia que são a baixa competitividade e um crescente deficit externo, especialmente na balança comercial. Os bons dados macroeconómicos, um ainda relativamente relevante crescimento estimado para este ano do PIB em 0,8% calculado pelo Banco de Portugal e aceite pelo FMI, pese o facto de o Governo apontar para 1,1%. Para 2007 o FMI projecta o crescimento do PIB para 1%, o Banco de Portugal em 1,1% e o Governo em 1,8% segundo o dado inscrito no Programa de Estabilidade e Crescimento (PEC). Recordemos que a subida do PIB em 2004 foi de 0,3%. Dadas essas condicionantes a criação de emprego pode ver-se afectada a curto prazo se não se adoptarem medidas, estruturais e conjunturais, para combater a inflação, maxime com um petróleo que continuará a sua evolução ascendente em termos de preços, com o seu nefasto efeito multiplicador nos mesmos.
No passado dia 14, o preço do crude situava-se à volta dos setenta dólares por barril e nada indicava que desceria num futuro imediato. As incertezas que se centram ao redor de alguns dos grandes produtores e exportadores são suficientes para estimar que não é previsível, a curto prazo, um aumento da oferta de crude ou seja, essa curva ascendente.
A meio e longo prazo é previsível um aumento da produção de crude com a descoberta e a colocação em exploração de novos jazigos que, com os actuais preços, podem ser rentáveis. Enquanto se materializam os investimentos necessários para pôr no mercado esses jazigos, o preço do crude será alto e o custo energético andará em órbita sobre as economias como um obstáculo ao crescimento.
Para a economia de Portugal e outros países europeus de economias mais débeis o custo do crude é um factor relevante, mais do que para outras economias, uma vez que a sua dependência energética é maior e a necessidade de petróleo decisiva. Os sucessivos governos da democracia europeia tomaram a questão energética com parcimónia, confiando na divina providência. Não preparam mudanças de estratégia para reduzir a necessidade de crude. O início dos anos de 1980 em alguns países europeus ficou suspenso e imobilizado o desenvolvimento nuclear. Interessante que os Partidos Socialistas Europeus nos seus programas eleitorais sempre defenderam esta posição. O programa energético nuclear a nosso ver foi decisivo, por todos os conceitos, para sustentar o crescimento, que sem que o nuclear se tivesse fragmentado na impotência. Desde então, nalguns países as energias alternativas, especialmente a eólica, e o gás sustentaram o crescimento da oferta energética mas com custos altos e com limitações para o futuro. Requerem-se mais alternativas e novas políticas para mitigar o efeito de um petróleo cada dia mais custoso, mais exclusivo e mais procurado.
Para fazer face à crescente necessidade energética ter-se-ão que abrir fronteiras, multiplicar os intercâmbios, incentivar as políticas de poupança e aproveitamento, diversificar os fornecimentos, em resumo separar toda uma panóplia de medidas e políticas que evitem que a energia se converta num obstáculo insuperável para sustentar o actual crescimento. Na União Europeia parece que tomaram nota do problema, que preocupa a todos os Estados-membros e a Comissão Europeia colocou-a entre as suas prioridades.
Desenhar uma política energética comum para a Europa levará tempo, requer renúncia de certos espaços de soberania e margem de negociação e flexibilidade dos governos europeus. Os resultados demorarão a chegar. Até esse momento, o governo português e outros fariam bem em levar mais a sério a questão energética. A tensão entre os Estados Unidos e o Irão faz impelir o preço do crude e arrasta as Bolsas. Algumas companhias áreas começaram a subir as suas tarifas para voos domésticos e intercontinentais transferindo para os clientes o aumento dos custos causados pelo crude.
O alastrado rumor de que os Estados Unidos preparam acções militares contra o Irão como resposta à retomada do seu programa nuclear fez subir nas últimas sessões o preço do petróleo nos mercados internacionais e, ainda que tenha recuado ligeiramente a sua pressão de alta durante a tarde de dia 13 passado, proporcionou um corte generalizado nos mercados bolsistas. Assim, desde o primeiro momento da sessão bolsista europeia observou-se uma forte pressão nas vendas, que foi interpretado de imediato como a lógica consequência de que os investidores preferem cancelar posições, ainda que com ganhos, e esperar o curso dos acontecimentos. Neste caso juntou-se o facto de que se aproximava na Europa um período em que não existiria Bolsa desde dia 14 a 17 passados, e em muitos mercados, os investidores preferiram manter-se fora do mercado e tomar decisões no dia 18. Iremos continuar na próxima semana com esta análise, deixando a informação que ontem e neste clima tão movimentado, os crudes recuperavam a alta suavemente, situando-se a 72,80 o barril em Nova Iorque e pouco menos em Londres. O dólar continuava fraco com o euro a atingir 1,245 dólares e o ouro fixava-se 633,50 dólares a onça todos com posições firmes.
















