Arne de Keizer
No tempo da Guerra Fria, a corrida espacial foi para as duas superpotências, Estados Unidos e União Soviética, o mesmo que os murros no peito dados pelos gorilas enfurecidos, mais quando se tratava de uma competição de presunções na qual se canalizava a agressividade como forma de não se converter no prelúdio para uma escalada da violência que fatalmente teria contornos atómicos, como esteve à beira de acontecer com a crise dos mísseis soviéticos instalados em Cuba, e que o Presidente John Kennedy fez recuar em 28 de Outubro, o Primeiro-ministro da URSS Nikita Kruschov e o seu fiel servidor Presidente Fidel de Castro. A crise veio a dar origem ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares que proibia os testes nucleares e assinado em 1963 entre os Estados Unidos, União Soviética e Inglaterra. Recordemos que a República Popular da China realizou em 1964 os primeiros testes nucleares. Novo Tratado de Não-Proliferação de Armas Nucleares (TNP) foi assinado a 1 de Julho de 1968, do qual a China é parte. A rivalidade entre os dois países tendo como suporte o prestígio e a imagem de cada um, e que actualmente há quem ainda ponha em dúvida o facto da nave espacial Apolo XI e o seu módulo lunar Águia terem alunado a 20 de Julho de 1969 e Neil Armstrong e Edwin Aldrin pisarem o solo lunar, e se ter tratado de uma superprodução de Hollywood que permitiu cumprir a promessa do falecido e reverenciado Presidente John F. Kennedy feita em Maio de 1961, de enviar um homem à Lua antes que terminasse a década de 1960. A China adoptou essa ideia surgida na Guerra Fria. Por muito que a sua economia salte para a prosperidade capitalista, o seu regime continua estagnado numa mentalidade de enaltecimento do orgulho nacional, próprio de épocas passadas.
A proeza técnica da missão da Shenzhou VI é indubitável. A China converteu-se no terceiro país, depois dos Estados Unidos e da ex-URSS, actual Comunidade de Estados Independentes, uma das partes das ex-repúblicas soviéticas, onde a Rússia é dominante, com capacidade de enviar um homem ao espaço. Esse talento, evidencia o nível de progresso tecnológico que talvez ninguém tivesse acreditado sem prova de uma missão desta natureza finalizar com sucesso. O homem chinês no espaço não poderá fazer esquecer que a situação dos seus compatriotas sujeitos ainda às leis da gravidade é menos galáctica. A moda actual da China baseia-se em grande parte nas projecções lineares que outorgam o poder de permanência, segundo a tendência de crescimento de 10% anuais atingidos durante os últimos vinte anos. Ignoram, no entanto, a enorme transição política que ainda tem de ser efectuada, uma vez que acreditamos que o monopólio do poder do Partido Comunista Chinês (PCC) não é sustentável a médio prazo.
As tensões sociais acumuladas sob o seu regime explodirão, se as reformas não vierem de dentro do próprio partido. Até agora têm seguido essa estratégia, mas as reformas políticas têm de acompanhar a rapidez do crescimento económico partilhado apenas por uma pequena percentagem da população chinesa. Sublinhe-se que a actual situação da China não é tão deslumbrante como um relâmpago tecnológico na escuridão que a Shenzhou VI poder-nos-ia fazer acreditar e pensar. O PIB da China é actualmente de cerca de 1650 milhões de dólares. Isto significa que a economia chinesa é 2/3 maior do que a portuguesa, pese ter uma população 130 vezes maior. Se a tarefa básica do governo é trabalhar pela prosperidade, liberdade e desenvolvimento do seu povo, o regime chinês não está a cumprir cabalmente os seus deveres. O Índice de Desenvolvimento Humano, que é o indicador básico de desenvolvimento da ONU, a China, por exemplo, situa-se na 85 posição mundial, atrás de países como as Filipinas, Peru e Equador.
O modelo de desenvolvimento chinês está a conseguir taxas agregadas de crescimento impressionantes. Mas oculta disfunções graves na partilha dos benefícios desse crescimento. Poderá esta situação ser a semente da decadência do regime comunista na China, a não ser que se produza uma rectificação drástica. Segundo os dados de 2001, e tudo aponta para que desde esse ano as desigualdades cresceram, e os 20% de chineses mais ricos como temos vindo a afirmar detém cerca de 50% da riqueza total do país. A taxa para igual situação na Suécia ou Noruega é de cerca de 36,5% e 37%, respectivamente. Muito perto da chinesa que ronda os 40% temos Portugal e Espanha. Quanto aos países vizinhos da China, é de 36% para o Japão, de 37,6% para a Coreia do Sul e de 45,5% para o Vietname. O PCC está bem consciente da situação problemática que se vive. Esta situação teve uma forte ajuda nas 70000 manifestações e nos três milhões de manifestantes que se calculam terem acontecido na China em 2004.
Um dos grandes benefícios da democracia é a igualdade de acesso ao livre mercado, permitindo que a informação flua com maior rapidez e exactidão. As eleições livres são com todas as suas limitações o melhor instrumento desenhado pela humanidade para saber o que pensa e deseja um povo. Um bom exemplo foi as recentes eleições legislativas indianas. O partido dirigente, Bharatya Janata Parti – Partido Popular Indiano (BJP), apresentou-se às mesmas, com a firme certeza de que sairia facilmente vitorioso de umas eleições inundadas por altos índices de crescimento económico. Enganou-se. O voto rural, o descontentamento face ao que se considerou ser uma partilha injusta dos benefícios do crescimento, fez votar os indianos no partido rival, o do Congresso liderado por Sónia Ghandi. Soube-se então, o que pensava a maioria do povo indiano.
Quem sabe o que pensa a maioria do povo chinês? Por mais sofisticados que sejam os serviços de secretos chineses, os seus pensamentos e conclusões sobre o descontentamento do povo nunca poderão ser tão acertados como o seriam derivados de uma eleição livre. O bloqueio dos canais de informação que supõe uma ditadura acaba por terminar, cedo ou tarde, por via do incentivo à instabilidade política. Talvez por essa razão, nenhum país comunista tenha dado o salto definitivo rumo ao desenvolvimento, inclusive depois de deixar ser comunista.
Qualquer prognóstico para a situação da China nos próximos quinze a vinte anos, sempre será de grande incerteza, dependendo da forma como o PCC, conduzir as reformas políticas que urgem, que sempre terão de vir de dentro do partido e não das massas sob pena de total instabilidade social, que permitiriam situações de ruptura social e violência, exponencialmente mais graves que as que vive a França. Assim que prever na China é dar um tiro no escuro.
















