“É bom que se discuta e teorize sobre os obstáculos ao desenvolvimento, mas devemos dar atenção aos obstáculos que nos impedem de perceber o desenvolvimento”.
Albert Hirschman
Nos períodos de 1990 a 1995, e de 2000 a 2003 o Uruguai tomou uma atitude activa para atrair investimentos ao país, dada a concepção de que não ser possível uma situação cómoda dos seus líderes se sentarem no sofá e esperar que os investidores chegassem como por milagre da Imaculada Conceição de Maria, que em 1823 mudou para o nome de Nossa Senhora dos Trinta e Três, designada como padroeira do país em 1962.
A experiência a nível mundial aconselha que se deve sair dos confortáveis e cómodos gabinetes ministeriais, e com uma forte componente alicerçada no marketing estatal e privado procurar os investidores porque são muitas as oportunidades que têm no mundo.
Seguindo a mesma linha de raciocínio, vemos que dada a situação de endividamento do país, o objectivo mais importante é o de aumentar o investimento.
Para atingir essa meta destaca-se como tendo sido um sucesso o acordo conseguido com os organismos multilaterais, especialmente com o Fundo Monetário Internacional (FMI), (pelas posições demonstradas ao longo de anos de escritos acerca da globalização, e cuja compilação e aprofundamento fazemos revisão para a publicação da História da Globalização: diversas vertentes, em colaboração com um dos mais reputados académicos americanos sobre a matéria, e que sempre demonstrámos na esteira do pensamento do Professor Joseph Stiglitz, Prémio Nobel da Economia de 2001, ser contra as políticas macroeconómicas do FMI e do Banco Mundial, e que depois do segundo doutoramento que preparamos, seria o terceiro na área económica, e em princípio sobre a sua coordenação, pelo que publicamente deixamos clarificado, dada a aleivosia de alguns) e que se apresentam como exemplos positivos dos investimentos de empresas multinacionais, que construirão fábricas de papel e celulose no rio Uruguai, como sendo certo que tal situação desencadeará um enorme crescimento nos postos de trabalho.
Os investimentos no sector florestal ilustram os contornos claros e escuros para não dizermos opacos desta visão conceitual insignificante.
Na margem uruguaia do rio Uruguai está a ser construída a maior fábrica processadora de celulose da região, a partir de um investimento realizado pela empresa finlandesa Botnia, e que excede os mil milhões de dólares.
O empreendimento encontra-se no centro de um constante conflito bilateral entre o Uruguai e a Argentina (ambos membros do Mercosul) já que grupos vizinhos do segundo país denunciam os impactos ambientais que podem causar esse tipo de fábricas.
Segundo o ponto de vista uruguaio, um investimento desta grandeza, seria fatalmente contestado pelos países vizinhos não beneficiários.
Entretanto, a Argentina pediu ao Tribunal Internacional na Haia, a 8 do corrente mês que impedisse o Uruguai de construir duas fábricas de papel e celulose gigantescas do lado uruguaio de um rio que marca a fronteira entre os dois países, uma vez que iriam danificar o meio ambiente da região.
Em Abril, o Banco Mundial suspendeu o envio de 400 milhões de dólares em créditos, até terminarem os estudos sobre o impacto social e ambiental do projecto.
A decisão sobre o pedido da providência cautelar instaurada pela Argentina, só terá sentença nas próximas semanas.
Mas as dificuldades começam ao tornar-se uma evidência que boa parte do anunciado investimento, na realidade será em maquinaria e bens de capital cuja compra se realizará em outros países industrializados, incluindo a própria Finlândia.
Daí que uma grande percentagem desse investimento permanecerá noutros lugares e nunca chegará ao Uruguai.
O investimento líquido que receberá o país, é motivo de debate, uma vez que não existe uma instituição estadual que possa analisar todas as fases do processo em causa.
Estimou-se que dos mil e duzentos milhões de dólares de investimento calculados, cerca de oitocentos milhões de dólares nunca chegarão ao Uruguai.
Para além, disso, existem efeitos colaterais e externalidades que deveriam ser suportados ao considerar qualquer investimento.
Não se analisou, quanto deverá custar ao investimento finlandês por custos devidos aos possíveis impactos ambientais, como a redução de turistas na área e o desaparecimento da pesca artesanal.
Por fim, a equipe económica uruguaia, defende estes investimentos porque criam emprego.
O empreendimento recrutou cerca de 1500 trabalhadores, mas deve-se ao facto de estar na fase de construção da fábrica.
Na sua fase de laboração regular estima-se que a fábrica criará cerca de 300 postos de trabalho.
É um caso típico de um enorme investimento para exportar “commodities” e que cria em termos comparativos pouca mão-de-obra, mas elevados impactos sociais e ambientais.
Casos similares são os investimentos dirigidos à extracção de hidrocarbonetos no Equador e Peru, ou os novos projectos mineiros no Peru e Argentina.
Estes e outros exemplos demonstram que os raciocínios simplistas e meramente quantitativos que aliam os investimentos com o crescimento económico continuam a ser alargados e activos.
Se essa relação causal fosse verdadeira, os países que recebem os maiores investimentos na América do Sul ou noutros países de continentes diversos, deveriam ser os que mais sucessos apresentariam, quer em crescimento como na criação de emprego e redução da pobreza.
Para analisar esta questão vale a pena uma referência ao Brasil, um dos países sul-americanos que mais investimento externo atrai e todos sabemos as consequências em termos de criação de empregos e desenvolvimento.
Factores como o investimento ou as exportações por si, não podem conseguir descidas significativas da taxa de desemprego ou no número de pobres, como argumentaram durante anos determinadas correntes económicas.
A insistência em querer circunscrever ao crescimento económico a dinâmica do desenvolvimento apresenta-se muitas vezes como o signo de sensatez, ainda que na realidade, seja o da simplificação.
A ilusão de resolver a pobreza por via do crescimento económico foi sublinhada e questionada em muitas ocasiões. Recordemos alguns exemplos.
Entre os mais recentes, o Professor Bernardo Kliksberg, assessor especial da ONU, UNESCO, UNICEF e OPS, no seu livro que recomendamos, “Falácias e Mitos do Desenvolvimento Social”, de 2002, faz um retrato abrangente das políticas de desenvolvimento, mostrando os seus equívocos e apontando caminhos alternativos.
As falácias elaboradas no total de 10 enumeram os problemas sociais na América do Sul, onde o terceiro lugar é ocupado pela ideia de que o crescimento económico por si só, é suficiente para melhorar a qualidade de vida das pessoas.
O Professor Kliksberg afirma que o crescimento económico é só um meio, e como tal não pode ser convertido num fim em si mesmo. Alguns anos antes, o Professor Albert Hirschman alertava num clássico texto, que na década de 1980, quando quase todos os factores económicos pioraram, mas alguns países conseguiram de qualquer modo melhorar vários indicadores sociais, especialmente nos sectores da saúde e educação.
Por essa razão conclui que o progresso económico tem uma relação descontínua com o chamado progresso político.
As relações por vezes são de causalidade entre si, mas em outras podem opor-se, ainda que sejam comuns as interacções complexas e problemáticas.
Outros autores destacaram ao longo dos anos de 1990, estes e outros problemas sobre a ilusão de atenuar a problemática do desenvolvimento no contexto do crescimento económico. Mas o seu discurso teve pouco efeito. Outro ciclo de interrogações aconteceu ainda mais extemporâneo, desde meados dos anos de 1960.
Para compreender esse debate é necessário recordar que foi depois da Segunda Guerra Mundial que se popularizou a ideia do desenvolvimento como crescimento económico.
















