“O pensamento ortodoxo rígido na economia lançou a ideia de que são dois mundos diferentes. A economia seria para ser usada pelos técnicos. A ética pelas igrejas, filósofos e moralistas. É uma separação que as nossas sociedades devem enfrentar, e voltar a reconstituir a unidade profunda que devem ter. A ética deve presidir e orientar a economia”.
Bernardo Kliksberg
O crescimento económico manifesta-se através de um molho de possibilidades e, o equivalente do tamanho do ser humano, em economia seja geralmente o Produto Nacional Bruto (PNB), sendo o sistema de medidas a Contabilidade de cada Nação; indicador que não é o suficiente para definir o crescimento.
Vários autores e correntes sobre o conceito desde Perroux até ao conceito de crescimento zero vulgarizado pelo Clube de Roma o têm estudado.
O cerne da questão é a interrogação que devemos por de como é possível progredir através do glorioso caminho do crescimento, inovação tecnológica e maior eficiência durante longo período de tempo e chegar a uma economia global de altos índices de desemprego massivo, extenso manto de pobreza que cobre ¾ do mundo e o receio de um colapso económico? A grande revelação é de que a procura do crescimento beneficia apenas uma pequena parte da população mundial, e a ampla maioria continua a acreditar numa retórica que resolverá os problemas do mundo ao aspirar o crescimento, sem importar os custos.
Adam Smith atrasou a publicação do seu trabalho “A Riqueza das Nações”, de 1776 por vários anos num esforço vão por chegar a uma conclusão diferente, finalmente viu-se obrigado a escrever, se cada indivíduo tentasse obter o seu próprio benefício, seria impulsionado por uma mão invisível que provocaria um fim que não fazia parte da sua intenção, e que teria como meta uma maior promoção dos interesses da sociedade, como se deliberadamente tivesse proposto fazê-lo.
Literatura essencial que devia ser obrigatória nas faculdades de direito e economia, bem como a de outros autores clássicos e modernos que marcaram a história do pensamento económico.
Mas se esse “aggiornamento” não existe nos professores, como se poderá exigir nos alunos? Basta dar uma volta pelas bibliotecas das Universidades a começar pela de Macau e logo se dará conta, nas fichas de requisição dos livros, que grande parte dos mesmos nunca foram lidos.
Talvez a moda seja criar licenciados ignorantes. A este propósito deixamos a ideia de como a Universidade de Harvard conseguiu ultrapassar a ignorância fatal dos alunos de diversos cursos, incluindo o de direito, introduzindo com carácter de obrigatoriedade, há alguns anos, as disciplinas de história e geografia.
Continuando novamente no nosso tema, damo-nos conta que apesar das dúvidas de Adam Smith no sentido de apoiar uma desculpa para o egoísmo e a avareza, a sua "Teoria da Mão Invisível", (que nada têm a ver com aquela que surripia as carteiras na China e Hong Kong e trata-se de por vezes, de mão-de-obra especializada muita dela importada da América do Sul) que governa os nossos pensamentos a respeito do comportamento comercial actual e encontra-se na raiz da maioria dos problemas económicos e ambientais mundiais.
Em 1958, o professor e economista liberal da London School of Economics, Phillips, publicou um artigo que produziu um efeito daninho em milhões de vidas.
Ao comparar a taxa anual de crescimento dos salários em Inglaterra com a percentagem de pessoas desempregadas durante cada ano entre 1867 e 1913 obteve o que veio denominar-se por curva de Phillips, concluindo as suas investigações com a célebre máxima de que o nível de desemprego poderia explicar o nível da inflação.
A sua hipótese idealizava que a manutenção de certo nível de desemprego tornava possível controlar a inflação.
Um dos livros mais usados naquele tempo foi escrito por Arthur Lewis, em 1955, e cujo tema é a “A teoria do crescimento económico”, em que deixa bem claro que o propósito do seu trabalho é o crescimento económico e não a distribuição, é a produção e não o consumo, deixando de fora a definição do conceito de produto.
A vantagem do crescimento económico não é que a riqueza aumente a felicidade, mas que aumente o espectro das opções humanas.
A riqueza aumentaria a felicidade se aumentassem os recursos numa proporção maior que o nível de aumento das necessidades, não sendo possível, daí não existir alguma evidência de que os ricos sejam mais felizes do que os pobres, ou que os indivíduos são mais felizes na medida em que aumentem os seus rendimentos.
A riqueza diminui a felicidade, se na aquisição da riqueza deixamos de encarar a vida como ela se apresenta e começamos a preocupar com os recursos e o futuro.
A felicidade por si só não é a única realidade boa da vida. O crescimento económico dá ao homem um maior controlo sobre o seu meio e aumenta a sua liberdade.
Em resumo, eliminam-se umas quantas preocupações enraizadas, pese o facto de ser possível o crescimento da produção e, que a maioria do povo empobreça.
O manuseamento conceitual dessas ideias recorda muitas das insistências actuais uma vez que desde a época de Arthur Lewis se começou a associar o crescimento aos investimentos nos anos de 1960, e ao comércio nos anos de 1970.
O facto atraente é que em meados da década dos anos sessenta essas ideias convencionais do crescimento económico começaram a ser atacadas de vários lados.
Um crescente número de críticos defendeu que o problema para os países do Hemisfério Sul não era o crescimento, mas sim o desenvolvimento, uma opinião que não é ouvida muitas vezes actualmente.
Assim, começou um florescente debate sobre o desenvolvimento, incorporando discussões sobre o desenvolvimento social, a geração do emprego, a composição e distribuição do crescimento, e a necessidade de incluir instrumentos que gerassem equidade.
Dudley Seers, no seu trabalho “The Meaning of Development” de 1969, afirmaria que todos tinham sido demasiado idiotas ao confundir desenvolvimento com desenvolvimento económico, e desenvolvimento económico com crescimento económico.
Acrescenta ainda, que foi demasiado infantil assumir que o aumento no rendimento nacional, se produz de forma mais rápida que o crescimento da população, o que tarde ou cedo levaria à solução dos problemas sociais e políticos, e tudo dá a entender nesta conceptuologia que o crescimento económico não só falha em resolver as dificuldades políticas e sociais, mas que certos tipos de crescimento podem causar esses problemas.
Essas duras interrogações tiveram um eco importante quer nos meios académicos como nas instituições dedicadas aos estudos sobre o desenvolvimento, mas uma vez mais foram desatendidas e a fé no crescimento económico reapareceu durante os anos do Consenso de Washington.
Apesar desses ciclos de interrogações e críticas que se lançam contra a minimização do desenvolvimento, voltam a emergir a ilusão do desenvolvimento como crescimento económico.
Essa ilusão alimenta-se da formação técnica de quem trabalha em temas de economia e desenvolvimento, e expressa-se nas mais diversas correntes político-económicas.
Uma das principais fábricas de reprodução desse pensamento é o Banco Mundial. Daí que, os economistas têm uma grande influência no Banco Mundial, e que essa instituição pode ser concebida como uma igreja no mundo económico.
Os economistas dessa instituição vão ao seminário e aprendem a sua teologia, para de seguida aplicá-la ao mundo para seu próprio bem. É uma má teologia, e todos os economistas que trabalham no Banco Mundial, quer sejam de África, da Europa ou dos Estados Unidos, obtêm os seus diplomas na Universidade de Harvard, Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Universidade de Oxford, Universidade McGill e outras universidades de topo, que ensinam mais ou menos o mesmo.
O problema actual é mais profundo do que as acções que se iniciam desde as instituições financeiras internacionais, e defrontamos com uma forma de conceber e reproduzir certo tipo de conhecimento. Essa formação ortodoxa reproduz-se a partir das universidades.
















