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Entrada Economia Internacional O arrojado passo do Japão

O arrojado passo do Japão

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“Only 29 percent believe that Abe will be a strong leader, compared with 53 percent who question his leadership skills”.

The Asahi

Uma das principais características do crescimento económico quando acompanhados de desenvolvimento, porque os dois conceitos não são semelhantes é a alteração da malha urbana das cidades. Nas economias emergentes o principal quadro de prosperidade é o aparecimento de edifícios enormes e sem qualquer sentido estético e beleza arquitectónica, no conceito que temos da arquitectura como arte.

As economias novas e pujantes da Ásia que começaram a aparecer depois da Segunda Guerra Mundial, com o Japão a liderar, criou um efeito multiplicador em toda a região e que varre a China.

Ao lermos a história do Japão e de algumas cidades asiáticas como Xangai até meios do século passado, descobrimos que no Oriente as poucas cidades que nos transmitiam algo ao nosso imaginário sobre o Oriente morreram e actualmente parecem não ter alma própria que as definam na sua singularidade com as demais, faltando-lhes o sentimento da história, que nada tem a ver com tempo.

A cidade de Tóquio que é velha no tempo, carece do sentido do sagrado e do ritual, que supomos que tenha ficado esquecido em Kioto. No Japão todas as coisas têm o seu próprio lugar, mas a um Ocidental nunca lhe passaria pela mente pôr como símbolo de um país a imagem de um monte como o Fuji.

A diferença do Ocidente, e referimo-nos à Europa, porque os Estados Unidos, não representam o Ocidente, faz jus e honra às suas cidades, reconhecendo-se nelas.

Facto difícil, para que os escritores e cineastas orientais, captem o seu espírito e essência de uma cidade, tal como nós a entende, existindo poucas narrações e descrições das cidades ocidentais.

Se Tóquio parece carecer de alma, as pessoas que a habitam identificam-se com a cidade.

Podem afirmar que esta concepção é inconcebível, e aceitamos ao lermos e vermos o estilo recheado de as imagens dinâmicas, se as identificarmos com a prosa e a gravura japonesa, onde as cidades se sentem confortáveis de terem sido desenhadas, e apresentam o melhor de uma fantasia inexistente, quase aparecendo carregadas de sentido histórico como as cidades italianas do renascimento.

Os japoneses tal como os italianos têm algo de comum em sentido oposto, quando querem dar o relevo a determinada imagem, quase sempre recorrem a um templo antigo, que depois tentamos encontrar e nunca o descobrimos na cidade.

Talvez por isso Tóquio é tão real e irreal ao mesmo tempo, porque é o reflexo de um mundo anódino e mutante como a da brutal modernização do Japão como é Xangai do crescimento económico da China.

Tóquio foi vítima intercessora dessa modernização como Xangai o está a ser. O descaracterizar a cidade, perdendo o sentido do histórico e do tradicional, dando prioridade ao inestético, ao brutal e o sem sentido para mostrar um enriquecimento fictício, é algo típico das cidades orientais.

A cultura pode ser morta de várias formas e pela arquitectura é a golpe de martelo hidráulico, que a nova versão do autocad por certo desconhece.

Parece-nos que o software acaba por contemplar mais emoções que o seu utilizador.

A maior parte das cidades orientais estão a matar a sua cultura e as suas tradições.

Muitas deixam a tradição para outros lugares, e outras nem lugar têm para pôr a tradição e extingue-se.

Tóquio, tal como Xangai actualmente são capitais com a vocação de engolir a história e a tradição e com os seus Torquemadas a fazer diariamente autos de fé.

Mas Tóquio para além do que perdeu, é a capital do Japão que está a ser palco de mais uma reviravolta na sua história, quando no dia 1 deste mês o Ministro e porta-voz do governo nipónico Shinzo Abe, anunciou oficialmente a sua candidatura para suceder ao Primeiro-ministro Junichiro Koizumi, quando este deixasse o poder até ao final do mês.

Abe é um conservador de 51 anos que venceu as eleições no dia 20 para a presidência do seu Partido Liberal Democrata (PLD), em que Junichiro Koizumi, de 64 anos, para além de abandonar a presidência do partido, deixa o cargo de Chefe do Governo, conforme estabelecem os estatutos do partido.

Abe era o favorito entre os três candidatos concorrentes à presidência do PLD e à chefia do governo nipónico, sendo os restantes o Ministro dos Negócios Estrangeiros e o das Finanças.

Após eleito presidente do partido, é apresentado ao Parlamento para ser aprovado como Primeiro-ministro do Japão.

O PLD tem a maioria legislativa, pelo que não teria alguma dificuldade para o seu candidato ser aceite. Abe, tinha a seu favor a preferência da população, e conta com o apoio de Koizumi e dos principais líderes do PLD.

Entre as suas propostas, que constam do programa, figura a alteração da Constituição pacifista imposta em 1947 pelo general George Marshall.

Programa que cria receios na China, Taiwan, Coreia do Sul e Rússia. Torna-se algo irónico, que Abe se proponha alterar a mesma Constituição, que é o resultado do desarmamento do país para vir a rearmar de novo o Império.

A justificação pode ser a ameaça nuclear da Coreia do Norte e a inépcia geopolítica do Presidente George Bush que lhe vêm a caber à medida como um anel perfeito ao dedo.

Trata-se de um líder que é o primeiro nascido depois da rendição do Japão aos Estados Unidos, com um suporte nacionalista, que enaltece as velhas glórias militares, como sejam a vitória sobre Rússia em 1905 (anexação das ilhas Kurilas e Sakhalin), os repetidos triunfos sobre a China, desde a conquista da Coreia e de Taiwan em 1895 até à criação de Manchúria e a ocupação de metade da China entre 1932 e 1944.

Na área económica, que mais têm a ver com o objecto do nosso texto, mas que é impossível em tempo de mudança deixar de dar um visão de conjunto, propõe-se continuar as reformas iniciadas pelo Primeiro-ministro Koizumi, apontando a artilharia para o crescimento económico anual de 3%, com controlo rigoroso da inflação.

Pretende criar uma política de benefícios fiscais para as empresas privadas que empreendam uma renovação tecnológica, e defende a expansão da economia japonesa na Ásia, com a celebração de Tratados de Livre Comércio (TLC), aumentando as exportações e apoiando muitos dos investimentos regionais.

Recordemos que face à ruptura da Ronda de Doha, em 24 de Julho, o Japão na Reunião da ASEAN, apresentou a 23 de Agosto uma proposta de constituição de um bloco económico constituído por países que englobavam metade da população mundial.

Favorável a uma melhoria das relações com a China e a Coreia do Sul, deterioradas com as contínuas visitas de Koizumi ao santuário de Yasukuni, símbolo do militarismo que levou o Japão no passado a invadir esses países e boa parte da Ásia.

Quanto às relações com a China, o Ministro japonês dos Negócios Estrangeiros, conhecido pelas suas posições nacionalistas, continuará a desempenhar as mesmas funções, pese a conturbada relação diplomática com China.

O governo chinês não demorou em pronunciar-se que continuava estagnada a possibilidade de melhoria de relações, uma vez que a posição chinesa não tinha mudado, e não havia condições para uma reunião entre os dois líderes.

No dia 26, Abe foi nomeado Primeiro-ministro do Japão pela Câmara de Deputados do Parlamento, com 339 votos a favor, dos 476 possíveis, tendo o líder da oposição Ichiro Ozawa, conseguido 115 votos.

A eleição foi conseguida pela maioria numérica na Câmara de Deputados da coligação liderada pelo seu partido, seguida de uma votação similar na Câmara Alta, considerada como mero protocolo formal.

A Constituição do Japão dá prioridade à nomeação feita pela Câmara de Deputados. O novo Primeiro-ministro desempenhará funções durante três anos, formando um novo governo com 17 Ministros.

Será 90.º governo do Japão. Em termos de política externa e de geopolítica estratégica e económica, reforçará o vínculo com os Estados Unidos, sendo partidário de uma linha dura para com a Coreia do Norte, à qual reclama informações verdadeiras acerca dos cidadãos japoneses raptados pelos seus serviços secretos nas décadas de 1970 e 1980, realçando a necessidade de retomar as negociações multipartidas sobre o programa nuclear da Coreia do Norte, com vista ao seu desmantelamento.

Uma das suas ideias mais controvertidas, é a da criação de um Conselho de Segurança Nacional semelhante ao dos Estados Unidos para enfrentar possíveis crises regionais.

Quanto à defesa, pretende garantir o direito do Japão de participar em operações de paz no exterior.

Reclama desse modo, o direito do Japão à defesa colectiva, com os Estados Unidos, seu o principal aliado, inclusive mediante a participação em acções militares no exterior.

Ao endurecer a sua posição perante a Coreia do Norte tem em vista pressionar a China, Rússia e os próprios Estados Unidos.

A alteração à Constituição tem como outra meta, poder permitir forças armadas regulares e participar em missões exteriores de forma flexível, e afirmou claramente que o Japão não podia continuar eternamente, debaixo da protecção da VI Esquadra americana.

Os Estados Unidos festejam o novo dirigente belicista nipónico. Como é normal o Presidente Bush, perdeu a visão das consequências a longo prazo destas intenções japonesas.

Uma delas será tornear a influência americana no Pacífico Ocidental, que a China receia.

Um outro efeito poderia ser o da China, Japão e Rússia concordarem na exclusão americana dessa vasta zona. Lembremos que a China é o principal parceiro económico do Japão, apesar de todas as fantasias patrióticas.

Por outro lado a Rússia pretende ser o fornecedor fixo de hidrocarbonetos aos seus dois vizinhos orientais. Este quadro vai em sentido oposto à da cada vez mais reduzida influência ocidental numa imensa região que inclui a Indochina e parte da Austrália (que dependem de exportações para o Japão).

A eleição para o cargo de Primeiro-ministro é feita em dois processos fechados, no partido e no parlamento. O voto popular tem um reduzido peso e, os japoneses dividem-se em duas classes, os situados entre os 30 e 35 anos, muito conservadores, e os jovens, cuja coisa pública não lhes interessa, encontrando-se absortos numa galáxia tecnológica autista.

Em resumo, a política económica, financeira e industrial, continuará a ser, a traçada pelo seu antecessor, cuja gestão seduziu os mercados. Estes também não costumam notar as subtilezas políticas ou sociais.

Num estudo sobre o clima negocial, feito para o Banco Mundial, a Tailândia figura entre os melhores países para investir.

Mas o golpe militar deu-se. No aspecto formal, Tóquio terá um papel internacional mais activo e tentará melhorar as relações com a China, Vietname, Taiwan e Coreia do Sul.

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 28.09.2006
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