“Se queremos que a liberdade seja garantida, temos que exigir que a política de liberdade económica ilimitada conceda lugar à intervenção económica planificada do Estado. Devemos exigir que o capitalismo sem limitações, dê lugar a um intervencionismo económico.”
Karl Popper
O economista Milton Friedman faleceu dia 16, com 94 anos nos Estados Unidos. Foi um dos maiores vultos do pensamento económico do século passado, quer se seja seguidor ou detractor, algo é real, marcou a teoria económica, e por muito que possa entristecer os pensadores de esquerda, e os pseudo-intelectuais à procura de uma “terza” via entre o capitalismo de várias faces e o socialismo de muitas características.
Foi um dos intelectuais que mais contribuiu para o pensamento económico liberal, sendo o líder incontestável da “Escola de Chicago”, onde defendeu o “Monetarismo Puro”, de grande utilidade aos Estados Unidos e ao Reino Unido, e um total fracasso nas experiências mal realizadas do Brasil, Chile, e Argentina.
Ligou a oferta monetária à inflação, e vários Bancos Centrais seguiram essa via, acabando com o legado de Jonh Maynard Keynes, o grande economista inglês, que foi o cérebro das medidas que foram implementadas após a Conferência de Bretton Woods, em instituições como o Fundo Monetário Internacional (FMI) ou o Banco Mundial (BM), que passaram a ser dirigidos por tecnocratas sujeitos aos grandes bancos comerciais, aos denominados “fundos”.
Existe neste “acabar o legado”, uma maximização crítica que clarificamos, dado o pensamento de Keynes ter sido útil nos anos de 1930, tendo falecido em 1946, não se podendo aplicar essas ideias aos acontecimentos dos anos de 1980 e seguintes, porque por certo Keynes se fosse vivo, não pensaria da mesma forma.
Daí que a maior crítica a Keynes é querer situá-lo em realidades económicas não existentes, e o maior erro dos neokeynesianos é querer aplicar as ideias de 1930 às situações actuais.
Milton Friedman preocupou-se muito com as relações entre a economia e a política, tendo produzido trabalhos académicos de vulto, que lhe valeram a outorga do Prémio Nobel da Economia em 1976, alternando com obras de divulgação político-económicas, com apreciações em termos sociais, de linguagem acessível aos que não dominam os complexos conceitos e meandros das teorias e pensamentos de uma ciência, que no afirmar de Joseph Schumpeter, era tudo o que ficava aquém e além das previsões económicas.
O nosso primeiro contacto com Milton Friedman, foram pelos seus dois livros “Capitalismo e Liberdade” e “Liberdade de Escolha”, muitos anos antes de sonhar que um dia conheceria o Oriente e o sistema capitalista anárquico e desenfreado, como Milton Friedman o designaria, e que constituía um caso de laboratório e de estudo.
Como um dos onze membros, durante cinco anos, do Comité Bancário de Hong Kong, viemos a comprovar que o sistema económico-financeiro, além de capitalista, é menos anárquico que o relatado por Friedman, que tendeu ao exagero, mitigado pelo produto de uma cultura, forma de pensar e de negociar muito próprias, que se expandiu ao continente, e aos países limítrofes, estimulando o crescimento económico que actualmente vemos, e que mais tarde Milton Friedman acabou por reconhecer.
Todavia, para além do seu mérito, o sistema económico de Hong Kong, cria as fantásticas desigualdades sociais existentes, e transplantadas como modelo para o continente e outros países.
Feroz defensor do sistema capitalista e da liberdade económica, que exigiam o ingrediente da liberdade política. Como consultor económico do Presidente Ronald Reagan, acabou por influenciar as políticas económicas inglesas da Primeira-ministra Margaret Thatcher.
Terminada a II Guerra Mundial, começou a ser considerado, como o líder da emergente “Escola de Chicago de Economia Monetária”.
O seu pensamento, desde essa época, centrou-se em dois aspectos fundamentais, como a defesa da liberdade e do mercado livre, preocupando-se em demonstrar a ineficiência da intervenção dos governos na economia.
As suas teorias rejeitavam o intervencionismo do Estado, a luta contra a inflação e a defesa da livre concorrência. A atribuição do Prémio Nobel, vem galardoar o pensador económico, pelas suas análises nos campos do consumo, história da moeda e política de estabilização.
Nasceu a 31 de Julho de 1912, em Nova Iorque, descendente de uma família de imigrantes judeus da Europa Central, tendo-se licenciado em Ciências Económicas pela Universidade de Rutgers, doutorando-se na Universidade de Columbia em 1946, ano em que ingressa como Professor da Universidade de Chicago, tendo sido professor em outras universidades americanas, como Columbia e Stanford.
No momento, em que tomou lugar no comboio dos economistas famosos, que apenas muito poucos se conservam, sem nunca descer, é de recordar John Maynard Keynes, tão criticado por Milton Friedman, ao afirmar que estava seguro de que o poder dos interesses criados aumenta excessivamente, comparado com a interferência gradual das ideias.
As teorias de Friedman manifestaram-se, de forma grandiosa, no seu escrito de 1957, “Uma Teoria da Função do Consumo”.
Profundo conhecedor de estatística e de econometria, que levou o próprio Joseph Schumpeter, a mencionar o seu trabalho econométrico. Milton Friedman revelou qualidades de percorrer o mundo empírico com igual destreza, provando que os indivíduos ajustam o seu consumo em função das mudanças que prevêem nos seus rendimentos a longo prazo, sem se preocuparem demais com as variações a curto prazo.
Não vamos entrar na argumentação do uso do multiplicador de Khan, aluno de Keynes, e que Milton Friedman, o usa, inserindo-o na “Teoria Geral”, que faz a Escola de Chicago, sob a sua liderança, revolucionar o que se poderá denominar de modelo académico, até à data considerado como certo.
Foi por essa via, que renasceu no espaço universitário, a “Teoria Quantitativa da Moeda”.
O sentido de desorientação, desregulamentação da economia, reprivatização e desestatização das empresas, vigilância do crescimento da despesa pública, equilíbrio orçamental, redução autoritária, e abertura dos mercados, no modelo proposto pela Escola de Chicago foi posto em prática.
Milton Friedman, desde 1966 até 1984, passou a escrever regularmente na revista “Newsweek”, pregando as suas teorias e ideias.
Existe uma particularidade na Escola de Chicago, que não defendia a convertibilidade. Actualmente os seus maiores apoiantes, declaram-se devedores de Friedman, apesar da administração americana de 1990 a 2001, ter sido mais prejudicial que as experiências monetaristas puras, de 1967 a 1973 e de 1976 a 1983.
Em relação aos países mais desenvolvidos, Milton Friedman não aceitava os excessos de especulação financeira.
O Sistema da Reserva Federal, depois de Paul Volcker, é o último baluarte do neoclassicismo, conjuntamente com o Banco Central Europeu.
Pretendia-se que o Banco de Inglaterra tivesse as mesmas características, mas nada mais é, que os resíduos do mercantilismo, que nem sempre comungam com os neoclássicos, segundo afirmam os seus porta-vozes informais, como o ”The Economist” e o ”Financial Times”.
Anteriormente a Milton Friedman, os economistas não eram levados a sério pelos governos.
Paul Krugman, é um crítico sistemático do monetarismo. Todavia, a ortodoxia, no momento está representada, por um moderado pensador económico, Paul Samuelson, cujas suas ideias se afastaram há anos das ensinadas por Milton Friedman, que poderia ter aberto a polémica, mas nunca o fez, como praticam no momento, os seus supostos seguidores.
Intelectual possuidor de uma enorme capacidade de escrita, que se perde, bastando ler a forma como escrevem os últimos Prémios Nobel, para não falar em muitos outros insignes economistas.
Antes do Presidente Ronald Reagan, os Presidentes Richard Nixon e Gerald Ford, tinham perfilhado em parte as suas teorias.
Para além, da ideia de que a oferta monetária era o factor chave na determinação do crescimento económico e das taxas de inflação, e de ter defendido o crescimento moderado e estável da oferta monetária, opôs-se ao controle de preços e salários, chegando a criticar a Reserva Federal, por tentar interferir no andamento da economia.
Apesar da sua oposição acérrima à intervenção do Estado, defendeu a adopção de um imposto de rendimento negativo, que permitiria aos que auferiam menos rendimento que um determinado limite, obter uma ajuda do governo. Muitas outras centenas de pensamentos, deixou à Teoria Económica, e que apenas na diagonal, poucas relembramos.
Milton Friedman, ainda que fosse, pela não intervenção no mercado por parte do Estado, veio a condenar o que acontece em Hong Kong, uma vez que a chamada política de não intervencionismo positivo, tinha sido óptima, e daí que pudesse continuar, mas era contrária aos interesses dos funcionários públicos, a quem o governo pagava para gastarem o dinheiro dos residentes e intrometer-se nas suas vidas.
Por tal razão, o Chefe do Executivo de Hong Kong, Donald Tsang, tivesse condenado a morte ao sistema, que tinha suportado a prosperidade de Hong Kong. O mais surpreendente é que ao longo de meio século, os seus predecessores resistiram a toda a tentação de promulgar impostos e intervir no mercado.
Ainda que, tenha sido uma colónia do Reino Unido, Hong Kong seguiu uma política de capitalismo “laissez-faire”, graças a um funcionário público do governo britânico, John Cowperthwaite, que foi o responsável pelas políticas económicas e financeiras de Hong Kong em 1945, chegando a Secretário para as Finanças em 1961, e ter administrado as políticas económicas até 1971.
Tendo falecido a 21 de Janeiro do corrente ano, defendeu a liberdade individual, recusando-se a elaborar estatísticas económicas, com receio de que os servidores públicos, as utilizassem como forma de intromissão na vida particular dos cidadãos.
O seu sucessor, Sir Philip Cave, criou o citado termo de não intervencionismo positivo.
Essas políticas, foram um sucesso extraordinário, e ao terminar a II Guerra Mundial, Hong Kong era uma ilha pobre, com um rendimento “per capita”, equivalente a ¼ do Reino Unido.
Em 30 de Junho de 1997, aquando da transferência de soberania para a República Popular da China, o seu rendimento “per capita” era igual ao do Reino Unido, o que constituiu uma prova decisiva, de que a liberdade influência positivamente a produtividade, incentivando as pessoas e empresas, a lutar pelos seus interesses.
O sucesso da liberdade individual em Hong Kong, foi um factor importante, quando se tornou necessário incentivar a China e outros países à livre concorrência e à economia de mercado; como resultado, esses países beneficiaram de um rápido crescimento económico.
A questão fulcral, é se a China continuará a avançar mais rapidamente para o sistema de Hong Kong, ou este retrocede mais rapidamente para o da China? O Chefe do Executivo, apenas defende a intervenção do governo, quando existam imperfeições evidentes na operatividade dos mecanismos do mercado, o que é ignorar a realidade do mercado, que elimina por si, quaisquer imperfeições, muito antes do governo poder agir.
Mas, mais significativas são as imperfeições óbvias ou não, que criam os governos intervencionistas. Meio século de não intervencionismo positivo, enriqueceu Hong Kong o suficiente para suportar a crise asiática de 1997, o desincentivo e as más políticas governamentais de intervencionismo.
A simples inércia poderá manter o intervencionismo confinado. Apesar das alterações políticas, o mais certo é que Hong Kong continue a ser rico e próspero por longos anos. Mesmo continuando a crescer, não irá continuar a ser um dos símbolos da liberdade económica, o que não reduz o mérito de meio século de não intervencionismo.
A experiência dos últimos 50 anos de Hong Kong, continuará a ensinar e estimular os adeptos da liberdade económica, e continuará a ser um modelo de adequadas políticas económicas, para os que pretendem atingir uma prosperidade semelhante.
Macau nunca será um concorrente de Hong Kong, nem poderá atingir o desenvolvimento e o crescimento económico sustentado, dada a dimensão e a falta de experiência de 50 anos de liberdade económica muito bem aplicados. Essa tentativa poderá levar a Macau, a ser apenas uma montanha de sonhos frustrados.
Terminamos o que vai longo, acerca do homem que se opôs a John Maynard Keynes, com uma citação de George Stigler no seu livro “Memórias de um Economista”, que tem um capítulo em que questiona se os economistas são boas pessoas, e a determinado passo ressalta a situação, da provocação que lhe fez para uma discussão, e o triunfar recorrendo a um sofisma, respondendo-lhe, que nem por brincadeira pode um economista usar como falácia a análise económica. Melhor epitáfio para a sua tumba parece ser impossível de se conseguir.
















