“Combinar bem-estar económico com coesão social e liberdade política é o desafio que se apresenta às nossas sociedades.”
Ralf Dahrendorf
Uma grande parte dos analistas económicos crê que a economia americana apresenta um desempenho largamente superior ao de outras economias do denominado “Primeiro Mundo” na expressão de Ralf Dahrendorf.
Quem, diariamente, tem a paciência de compilar os dados económicos acerca da evolução dessas economias, dá-se conta que as estatísticas não confirmam essa miragem.
É verdade que o PIB dos Estados Unidos cresceu a um ritmo superior ao da “zona euro”, mas deve-se ao facto de a sua população aumentar o consumo com uma cadência maior.
Se procurarmos as diferenças que separam ambas as economias, vemos que não muitas. Os dados oficiais, “verbigratia”, sobre o aumento da produtividade, que teoricamente devem ser a chave dos movimentos cambiais exageram na primazia dos Estados Unidos.
A grande explicação, que nunca é dada, reside no facto, de tudo começar por um “se” que tanto detestava a Jules Romains, e “se” as duas economias, “se” medissem por parâmetros semelhantes, nos últimos dez anos, chegaríamos à conclusão que o crescimento entre a “zona euro” e os Estados Unidos é quase o mesmo.
Enquanto a produtividade perde força, aquém do Atlântico, ganha além do mesmo. Essa afirmação não é verdade, porque a economia americana não supera de forma significativa a da “zona euro”, se tivermos em consideração os últimos anos.
A escassa vantagem conseguida pelos Estados Unidos, é à custa de incentivos fiscais. Os deficits estruturais, desde 2000, ajustados segundo os seus efeitos no ciclo económico a curto prazo, alargaram-se de forma súbita.
Ao mesmo tempo, a queda da poupança das famílias aumentou o deficit em conta corrente, que no ano passado foi de 6,55% do PIB. As economias da “zona euro”, desde 2000, não tiveram estímulos fiscais e as suas taxas de poupança interna mantiveram-se estáveis.
O crescimento americano, foi devido ao consumo interno, suportado na contínua redução da poupança doméstica e no vício ao endividamento, que é mal de que padece igualmente, o fisco. Essa situação, não pode sustentar-se indefinidamente, ainda que, o desejem os mercados especulativos. Tarde ou cedo, terá consequências inevitáveis, como desequilíbrios e um longo período de lento crescimento. Se nos recordamos, há cerca de dez anos, defendia-se a ideia de que a economia americana, estava muito próxima de uma longa fase expansão, alimentada por avanços tecnológicos.
Há quem continue a pensar que o fenómeno se deu e que continua, apesar dos malogros. Os futurólogos, prognosticam por maiores surpresas positivas.
Não obstante, este tipo de visões excessivamente optimistas, o facto é, que a economia americana está repleta de problemas e tensões. Há também, quem ofereça uma perspectiva inversa, que apesar de não ser suportada por uma perspicácia geopolítica excepcional, tem em comum algum risco, ao prever um tempo difícil para os investidores na economia americana.
Qual o significado destes pensamentos? Primeiro nada é possível fazer, a não ser quantificar riscos. Segundo não se expor demasiado e terceiro, estar preparado. A ciência geopolítica não é fácil de interpretar numa perspectiva financeira.
Daí que os economistas com uma visão de mercado, optem por salientar as suas componentes fundamentais, que parecem ser menos sombrias. Confirmando esse pensamento, sustentam que a globalização é um motivo pelo qual a inflação nunca se converterá num enorme problema, pese as obcecações dos principais Bancos Centrais. Essa variável, desde há anos que se tem mantido fixa, apesar das trepidações petrolíferas, por exemplo.
Não existe audácia possível, para afirmar que triplicando o preço do crude, a economia não sofre sérios prejuízos. Talvez se nos referirmos aos mercados financeiros, não à economia física. Na defesa de uma ideia mais arbitrária, podemos considerar que os recordes dos desequilíbrios nas balanças comerciais e de pagamentos dos Estados Unidos não criam severos problemas. Mas surgiria a questão de seguida, acerca da deterioração do dólar? Responder-se-ia de uma forma desalmada que é um fenómeno benigno? Seria a imbecilidade levada ao extremo.
Num breve relançar de olhos, para a quarta economia mundial como a chinesa, foi revelado no final do mês e ano que findaram, que segundo os dados oficiais, a situação líquida em divisas internacionais, atingiu o valor mil milhões e setenta milhões de dólares americanos, colocando a China no topo da lista, de detentora das maiores reservas cambiais.
Trata-se de posições em dólares, não em ouro. O Ocidente presume que essa situação, é uma forma de aumentar as pressões exógenas no sentido da China acelerar a revalorização do yuan.
Mas, o sentido pode ser outro, dado que o facto de deter elevado efectivo em caixa e títulos do tesouro americano, é um bom sinal, porque dessa forma evita que a moeda americana não se desvalorize mais.
Os activos em divisas, excluindo o ouro, cresceram 30% durante o ano passado, segundo o relatório do Banco Central, que inexplicavelmente, continua a designar-se por popular chinês. A solidez, os recordes em superávite comercial, a liquidez e o auge bolsista, dificultam um dos objectivos do Primeiro-Ministro chinês, que é o de arrefecer a actividade económica, o consumo e o investimento.
A esses fins, serviriam um aceleramento da revalorização do yuan. Não são as razões, que agradam ao Secretário do Tesouro dos Estados Unidos e aos seus iguais da Europa Ocidental.
Quer os Estados Unidos, como o Reino Unido e afins sustentam, que um yuan consideravelmente mais caro, arrefeceria a economia.
Não obstante, estão a pensar na realidade, no intercâmbio mútuo e na onda de exportações chinesas. Como nunca faltam chineses mais papistas do que o papa, existem analistas de Hong Kong, que sustentam que o aumento de reservas faz crescer o risco de inflação, borbulhas de activos e diminuição de investimentos.
Daí que meios da Região Administrativa Especial vizinha, sejam a favor da aceleração da revalorização do yuan. Um outro baluarte da ortodoxia monetarista, como é o Banco Asiático de Desenvolvimento (BAD), defende que a China não necessita mais que 400 milhões de dólares em reservas para prevenir futuras crises.
A China não leva a sério essa classe de pensamentos. A fim de monitorizar e controlar o investimento e o crédito, durante 2006, aumentaram duas vezes as taxas de juros referenciais e este mês foi ordenado aos bancos que imobilizassem mais fundos, acontecendo pela quarta vez em sete meses. O yuan foi reapreciado durante 2006, em 2,1% em relação a um cabaz de moedas constituído entre outras, pelo dólar americano-euro-iene. Daí que o dólar se tenha depreciado face ao yuan cerca de 3,5% no ano transacto.
















