“Se elevardes aos lugares de responsabilidade os homens honestos, e não os pouco escrupulosos, o povo obedecer-vos-á.Se, pelo contrário, vos rodeardes de gente desonesta, o povo desobedecer-vos-á.”
Confúcio

O governo chinês por vezes recorre ao uso de superlativos, positivos ou negativos, quando a economia aquece ou arrefece ainda que de forma mínima se tivermos em conta que no primeiro trimestre deste ano, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu cerca de 10,4% numa estimativa anual.
A expansão da economia chinesa tem apresentado desde 1978 um crescimento médio anual de 9%. Crescimento que tem sido contínuo e constante durante 28 anos.
A China enfrentou numa perspectiva unívoca a urbanização, o mercado, a privatização e a globalização, com um ímpeto sem precedentes.
Segundo o entendimento dos triunfalistas, o PIB poder-se-ia manter a esse ritmo médio por mais quinze ou vinte anos.
Os menos optimistas, não seguem de olhos vendados todas as opiniões, muitas delas ridículas, da mais famosa revista de economia mundial como é a “The Economist”, respeitável continuadora do mercantilismo.
Nem tudo o que é bom para a “The Economist” é bom para a geoeconomia, como nem tudo o que é dito e ensinado na Universidade de Georgetown é a melhor das compreensões para a teoria das relações internacionais e geoestratégia, e nem tudo o que se escreve na “Foreign Affairs” é incontestável.
Os tempos voláteis que vivemos não se compadecem com epítetos universais conotados com o óptimo duradouro. O equilíbrio é o meio-termo do percurso do acerto com o erro.
A venerável revista afirmou, que o ano de 2006 seria marcado pelo colapso e fragmentação da China em feudos económicos. Independentemente deste errado prognóstico, certo é que nenhuma multinacional pode voar como águia sem possuir a sua arguta visão de deixar escapar um mercado de mais de 1300 milhões de habitantes, custos baixos de produção e terceirização.
No encantamento dos primeiros existe uma euforia excessiva. No desencanto dos segundos um pessimismo melindroso. A metamorfose de um regime absoluto, como era o maoista, apoiado nos camponeses, e numa autocracia de mercado, aumentou os factores sociais, políticos, ambientais e económicos que podem originar a desestabilização.
Por exemplo, o país faz face a um rápido envelhecimento da população, patente na crescente escassez de mão-de-obra.
Tem origem na política de um filho por casal, (que serviria como luva ao Brasil e México) imposta no início da década de 1970 para travar o exponencial aumento populacional estimulado por Mao Tsé Tung, depois da guerra de 1925 a 1949.
O mundo e a própria China mais que ninguém receiam que a China envelheça antes de se tornar desenvolvida. A força de trabalho irá pentear os seus lisos cabelos brancos rapidamente nas próximas décadas.
A proporção entre a população activa e passiva será das mais altas do mundo em 2050. Existirão nessa data mais de 410 milhões de pessoas com idade superior a 60 anos.
Existiam cerca de 120 milhões de pessoas em idênticas circunstâncias em 2003.
Equivalerá a cerca de 30% do total da população. No corrente ano atingirá cerca de 10% do total da população. A Coreia do Sul e o Japão, sendo os mais directos competidores, enfrentam o mesmo problema.
Mas o Reino do Meio é mais pobre e estará numa fase muito precoce de desenvolvimento quando estiver perante uma verdadeira crise demográfica.
A sua rede de cobertura social está deteriorada e uma multidão carece de pensões de aposentação ou prestações mínimas por força das reformas a favor do mercado.
Não existe atendimento adequado para os cidadãos de baixos recursos.
Crescer é extremamente dispendioso em termos ambientais.
Centenas de milhões de pessoas bebem e usam águas contaminadas e metade adoece sistematicamente por esse motivo.
A Organização Mundial de Saúde (OMS) prevê que cerca de quatrocentas mil pessoas morrem directa ou indirectamente por causas que se prendem com a poluição atmosférica e afirma que cinco das dez cidades mais doentias do mundo situam-se na China.
Não pomos em causa o mal que a poluição atmosférica causa à saúde e qualidade de vida das pessoas, nem os cálculos feitos pela organização, baseados em dados não revelados.
Não defendendo nem acusando a China, por não haver dados concretos e provas científicas cabais, rejeitamos o número por excesso.
Os problemas do meio ambiente abrangem para além da chuva ácida, o desflorestamento, extinção de espécies, séria erosão dos solos, barragens repletas de lodo e emissões de dióxido de carbono ou de enxofre. Estão a ser construídas de forma acelerada fábricas que usam carvão, agravando a situação.
A má qualidade e pouca disponibilidade de água limitarão o desenvolvimento.
Existem graves deficits hídricos no Norte do país, onde se situam dois terços das terras aráveis, se produz metade dos grãos, vive a grande parte da população e se situa a indústria. O governo planeia investir mais de sessenta mil milhões de dólares até 2050 para canalizar as águas do rio Yangtsé, o terceiro maior rio do mundo depois do Amazonas e Nilo, com 6400 quilómetros de comprimento, situado no Sul, para servir a planície Setentrional.
Uma das medidas do aumento do imposto “ad valorem” que fez cair as cotações das bolsas de Xangai e Shenzhen no inicio do corrente mês, vem no seguimento do afirmado pelo Presidente e Primeiro-ministro aquando da última reunião ordinária da Assembleia Nacional Popular, com vista a criar uma maior transparência nas empresas e o conhecimento por parte dos cidadãos da vida empresarial estatal, como forma de eliminar o mal-estar relacionado com a má gestão e outros ilícitos, e evitar uma economia de mercado predatória, em que os lícitos geram projectos associados a falsas razões, e o povo vê esse espectáculo de gestores do interesse público vestidos com roupa de marca, a gastar fortunas em casinos e passearem em carros de alta cilindrada.
Situações que criam ressentimentos nos mais pobres que contemplam a televisão.
Não permanece em mistério a génese desses ilícitos, dado que a economia cresceu de forma espantosa nestes 28 anos e há quem pense erradamente que a distribuição de rendimentos começa pelo seu próprio bolso.
Situação, que não é exclusiva da China mas de todos os países em desenvolvimento no mundo. Apesar das negações vindas dos Estados Unidos, os mecanismos de controlo partidário continuam a funcionar e a denúncia é feita.
Afirma-se que as reformas transferiram faculdades políticas e promotoras a níveis de governo mais baixo ou local, que multiplica as oportunidades para a prática de ilícitos e publicitados numa imprensa local menos limitada que nos tempos de Mao Tsé Tung.
O partido comunista e o governo tem sabido reconhecer com o pragmatismo que é usual estes desvios e tem punido severamente os delinquentes, implementando e difundindo as campanhas necessárias para minorar esses efeitos daninhos na sociedade.
O partido comunista e o governo tem criado as medidas e praticado as reformas por sua iniciativa e não como resultado de pressões da própria sociedade, o que tem evitado tensões e mantido o princípio da sociedade harmoniosa, aliado do princípio de um país dois sistemas.
A China por vezes é vista como um estado de burocracia neoleninista e descentralizado capaz de pôr em perigo o crescimento sustentado, devido à má qualidade dos serviços públicos e das tensões sociais.
Os maiores defensores do sistema de mercado acrescentam uma inadequada protecção dos direitos de propriedade intelectual.
Os optimistas sustentam que nos próximos dez a quinze anos uma próspera classe média nascerá capaz de provocar a democratização e o pluralismo.
Taiwan que incondicionalmente faz parte da República Popular da China e a Coreia do Sul passaram de regimes autoritários a democracias parciais, depois do rendimento por habitante ter subido três vezes ao actual chinês. Todavia, não se encontravam perante o legado sociopolítico de Mão Tsé Tung, mas diante de sistemas virtualmente unipartidaristas.
Existe uma fatal incompreensão para o auge incontrolado de crédito ao investimento que o Banco Central este ano encara.
No ano passado o investimento fixo interno sofreu um aumento superior a 25%, que significa duas vezes e meia o ritmo anual de crescimento, numa economia que entre os anos de 2001 a 2005 aplicou cerca de 42% do PIB em infra-estruturas civis e equipamento industrial.
Uma economia que tem obtido gigantescos superavites nas trocas comerciais com os Estados Unidos. Uma economia que tem anualmente sido objecto de sessenta mil milhões de investimento directo estrangeiro (Foreign Direct Investment-FDI) e capitais especulativos que fizeram subir as reservas internacionais a um valor superior a mil milhões de dólares americanos.
A excessiva liquidez transborda nos grandes bancos, nomeadamente estatais, que têm intervenção em 75% do capital.
Este é o nó górdio do problema. O sistema é volátil, apesar dos esforços para impor reformas e injectar capitais frescos, estatizando carteiras desactivadas e autorizando estrangeiros a tomar participação em grandes instituições de crédito.
Não obstante, ainda se concedem demasiados empréstimos por razões políticas.
É desconhecido o valor das carteiras incobráveis, que as grandes multinacionais de auditoria estimam entre duzentos mil milhões de dólares e novecentos mil milhões de dólares.
















