JORGE RODRIGUES SIMÃO

ADVOCACI NASCUNT, UR JUDICES SIUNT

Descarbonização da economia mundial

Intro to Carbon Sequestration

Se

“Earth by human activities, particularly since the industrial age began around 1800, leading to stress on many aspects of the Earth System. There is a fundamental connection between the carbon (C) cycle and the transformation of the Earth by humankind.”

  Ecosystem Services and Carbon Sequestration in the Biosphere

Rattan  Lal

O Índice de Economias de Baixo Carbono calcula o ritmo de descarbonização da economia mundial necessário para controlar o aquecimento global de 2°C. O Grupo de Peritos do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC na sigla inglesa) publicou o quinto relatório de avaliação, em 2013, o qual inclui um orçamento de carbono até ao final do século, com a possibilidade racional de controlar o aquecimento global até 2°C.

 Tendo por base esse orçamento de carbono, a economia mundial deve reduzir a sua intensidade de carbono em 6,1 por cento anualmente, desde o presente até 2100. É um repto colossal, dado que as taxas de descarbonização actuais são apenas de 0,68 por cento anualmente e caso se duplicassem, levaria a uma situação de aquecimento superior a 4°C em 2100.

O primeiro relatório sobre o Índice de Economias de Baixo Carbono efectuado em 2009 analisa o progresso das economias dos países do G20 face ao orçamento de carbono a nível mundial para um aquecimento global de 2°C. A premissa fundamental é de que o PIB actual é muito intensivo em carbono e caso o crescimento económico se não separar das emissões de carbono, o planeta sofrerá um aquecimento significativo que terá efeitos sérios e de largo alcance.

O Quinto Relatório de Avaliação do IPCC (AR5), publicado em 27 de Setembro de 2013, é o estudo mais exaustivo referente à ciência do clima efectuado nos últimos seis anos. Os relatórios de avaliação, em termos históricos caracterizaram metas significativas no desenvolvimento das políticas internacionais referentes às mudanças climáticas.

O Primeiro Relatório de Avaliação do IPCC (AR1), publicado em 1990, precedeu à adopção da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (CQNUMC). O Segundo Relatório de Avaliação do IPCC (AR2) reuniu os esforços para adoptar o Protocolo de Quioto, em 1997.

O Quarto Relatório de Avaliação do IPCC (AR4), publicado em 2007, teve a obrigação de elaborar um acordo em Copenhaga dois anos mais tarde, e exortou muitos dos importantes emissores a comprometerem-se a respeitar os limites de emissão de carbono.

O relatório AR5 tem todas as possibilidades de prosseguir as negociações e elaborar um acordo consistente em Paris, em 2015. O relatório AR5 estabelece quatro orçamentos de carbono que correspondem a diferentes níveis de aquecimento até 2100. O objectivo actual acordado pelos países, sugerido na CQNUMC é limitar o aumento da temperatura a valores não superiores a 2°C. Tendo por base os orçamentos de carbono calculados pelo IPCC, foi revisto o Índice de Economias de Baixo Carbono com vista a avaliar os progressos das economias dos países do G20 no cumprimento desse objectivo.

A fim de atingir o cenário mais moderado de aquecimento descrito no relatório AR5, as emissões acumuladas de dióxido de carbono derivadas da queima de combustíveis fósseis deve ser desde o presente até 2100 de aproximadamente 270 GtC, ou seja, cerca de 990 GtCO2.

Se compararmos este valor com o número total de emissões ligadas à energia de 32 GtCO2 em 2012 e tendo como base as projecções económicas actuais, a economia global precisará de descarbonizar-se a uma taxa do 6,1 por cento anualmente até o 2100, para permanecer dentro deste orçamento de carbono, o que equivale a reduzir a intensidade de carbono a metade nos próximos dez anos, e a reduzi-la a um décimo dos níveis actuais até 2050.

O sistema energético mundial no final do nosso século deverá ser carbono zero. É de considerar seriamente que esta taxa de descarbonização é basicamente maior do que os 0,7 por cento alcançado nos últimos cinco anos, com políticas e tecnologia que não conseguem separar o crescimento económico das emissões de carbono na economia mundial.

O orçamento de carbono previsto para o período de 2012 a 2100, se o mundo continuar com as actuais taxas de descarbonização, estará esgotado em 2034. O orçamento de carbono concedido para oitenta e nove anos seria consumido em menos de uma quarta parte desse período.

A taxa de descarbonização actual se atingir 1,5 por cento, enquadraria a situação extrema prevista pelo IPCC, com um aquecimento global potencial próximo dos 4°C, em 2100. As previsões realizadas a existirem essas condições é da produção de efeitos adversos para os seres humanos e ecossistemas, na forma de stress hídrico, riscos na segurança alimentar, inundações costeiras devido à elevação do nível do mar, modificações catastróficas nos ecossistemas e extinção de espécies tanto em terra como no mar.

O relatório do Banco Mundial denominado de “Turning Down the Heat” apresenta mais pormenores sobre a razão pelo qual não seria um futuro promissor e desejável. O modelo existente crê num crescimento económico moderado a longo prazo nos países de economias emergentes e em desenvolvimento, e um crescimento lento e estável nos países de economias desenvolvidas.

É de prever que o tamanho da economia mundial será três vezes maior que a actual em 2050, e doze vezes maior em 2100. A grande questão posta é a de saber se esse suposto crescimento a longo prazo é razoável e compatível com um futuro no qual falhamos em controlar e reduzir as mudanças climáticas.

O Índice de Economias de Baixo Carbono tem seguido as alterações na intensidade de carbono mundial e dos países do G20 desde 2008, pouco depois da publicação do anterior AR4. Apesar das advertências dos cientistas, de que as mudanças climáticas criarão impactos danosos sem precedentes em todo mundo, o crescimento das emissões de gases de efeito de estufa continua constante.

O relatório do Índice de Economias de Baixo Carbono referente a 2012 prevê que a economia mundial necessita de reduzir a intensidade de carbono (a quantidade de emissões de carbono por unidade de PIB) em cerca de 5 por cento anualmente para limitar o aquecimento a 2°C e apenas a Austrália, Estados Unidos e Indonésia conseguiram reduzir em 2013, sendo que nenhum país do G20 conseguiu atingir tais valores de descarbonização no período de 2007 a 2012.

A medida de intensidade de carbono em todos os países do G20 indica que existe um enorme espaço para reduções. O país com maior intensidade de carbono é a Arábia Saudita que apresenta uma intensidade cinco vezes maior que a França, que é o país que apresenta intensidade mais baixa.

A comparação entre as economias dos países do G7 e E7 é interessante. O ano passado, os países do G7 tiveram uma média de 2,3 por cento de redução na intensidade de carbono, enquanto o grupo de países do E7 (que inclui grande parte do suporte industrial da economia mundial) só conseguiu 0,4 por cento. A intensidade de carbono dos países do E7 foi 70 por cento mais alta que a média dos países do G7 em 2012, demonstrando que as emissões de carbono estão ligadas basicamente à estrutura económica dos países.

O AR5 é o estudo mais conceituado da ciência das mudanças climáticas efectuado, e conta com um processo intensivo de revisão e análise dos resultados. Ainda que possam ser discutidos alguns pormenores, a mensagem principal do relatório é clara, ou seja, a intervenção humana sobre o clima global é uma séria realidade e se não for controlada terá consequências negativas de grande alcance, sendo necessário que os países e as empresas trabalhem para encarar os possíveis riscos.

O AR5 contém outras mensagens como a abordagem à questão denominada por pausa no aquecimento global, ou seja, de que a percepção do ritmo de aquecimento se tornou mais lento desde 1998. Faz notar que a propensão é clara durante várias décadas e que devido à variação natural, as previsões baseadas em registos de períodos curtos são muito sensíveis às datas de início e fim, e em geral não reflectem as tendências climáticas a longo prazo. Ao considerar o ano de 1998 (um ano muito quente pelo fenómeno El Niño) como início dessa pausa não oferece uma visão completa da previsão do aquecimento nas três últimas décadas. A referência aos três anos a seguir a 1994 como datas iniciais dão resultados mais uniformes no que diz respeito à previsão dos últimos trinta anos.

É a primeira vez que o IPCC publica orçamentos de carbono relacionados com as diferentes trajectórias das emissões, denominadas por Vias de Concentração Representativas (RCP na sigla inglesa). O AR5 assinala que o total das emissões de dióxido de carbono a partir da segunda metade do século XIX não deveria ser superior a 800 GtC para atingir o objectivo de controlar o aquecimento global de 2°C. As emissões em 2011, foram aproximadamente de 531 GtC, deixando um orçamento muito limitado entre o presente e 2100 para se poder atingir a meta de 2°C.

O aquecimento do clima é inegável, e muitos das mudanças observadas desde a década de 1950 não têm precedentes em décadas e inclusive milénios. A atmosfera e o oceano têm maiores temperaturas, as quantidades de neve e gelo diminuíram, o nível do mar elevou-se, e aumentaram as concentrações de gases de efeito de estufa.

O aquecimento dos oceanos domina o aumento de energia armazenada no sistema climático; representa mais do 90 por cento de energia térmica acumulada no período de 1971 a 2010. A influência do homem sobre o clima global é clara, sendo visível pelo crescimento das concentrações de gases de efeito de estufa na atmosfera, o forçamento radioactivo positivo, o aquecimento que se observa, e pela nossa compreensão do sistema climático.

As contínuas emissões de gases de efeito de estufa causarão maior aquecimento e mudanças em todos os componentes do sistema climático. Presumivelmente a mudança na temperatura global da superfície terrestre no final do nosso século será superior a 1.5°C tendo como referência o período de 1850 a 1900 para todos os cenários das RCP.

O aquecimento global continuará após 2100 em todos os cenários das RCP. As emissões acumuladas de dióxido de carbono, na sua maioria, determinarão o aquecimento médio global de superfície terrestre no final deste século e no seguinte. A maioria dos aspectos das mudanças climáticas perdurará durante vários séculos, mesmo se forem controladas as emissões de dióxido de carbono, o que representa um acordo fundamental com as mudanças climáticas, de vários séculos, criado pelas emissões de dióxido de carbono passadas, presentes e futuras.

 

Jorge Rodrigues Simão, in “HojeMacau”, 21.03.2014

 

Share

Pesquisar

Traduzir

ar bg ca zh-chs zh-cht cs da nl en et fi fr de el ht he hi hu id it ja ko lv lt no pl pt ro ru sk sl es sv th

Azulejos de Coimbra

painesi.jpg